sexta-feira, 26 de março de 2010

Conceitos importantes para a compreensão da identidade do gaúcho , por Manoelito Savaris

Conceitos importantes para a compreensão da identidade do gaúcho


Com o objetivo de contribuir para a melhor compreensão a respeito das particularidades da sociedade sul-rio-grandense apresento alguns conceitos sobre termos que são utilizados freqüentemente no meio tradicionalista e por pessoas que se aventuram no campo da cultura típica da sociedade gauchesca.


TRADIÇÃO

“É o ato de transmitir os fatos culturais de um povo através de suas gerações. É a transmissão das lendas, narrativas, valores espirituais, acontecimentos históricos através dos tempos, de pais para filhos. É um conjunto de idéias, usos e costumes, recordações e símbolos conservados pelos tempos pelas gerações. É um culto aos costumes das boas coisas do passado. O povo gaúcho tem, no chimarrão, no fandango, na pilcha, nos temas musicais, na poesia, na doma, a mais bela das tradições.” Odalgil Nogueira da Camargo

“Essa palavra vem do latim, do verbo tradere (traditio, traditionis), que quer dizer trazer até, entregar. Em direito, tradição significa entrega. Em um sentido amplo, que é o que interessa para o presente estudo, tradição quer dizer o culto dos valores que os antepassados nos legaram, nos entregaram.” Antonio Augusto Fagundes
Glaucus Saraiva, na obra Manual do Tradicionalista, diz: "Tradição é o todo que reúne em seu bojo a história política, cultural, social e demais ciências e artes nativas, que nos caracterizam e definem como região e povo. Não é o passado, fixação e psicose dos saudosistas. É o presente como fruto sazonado de sementes escolhidas. É o futuro, como árvore frondosa que seguirá dando frutos e sombra amiga às gerações do porvir. "
Glaucus Saraiva, na mesma obra, cita ainda Hélio Rocha que diz:

"Tradição não é simplesmente o passado.
O passado é o marco. A Tradição é a continuidade.
O passado é o acontecimento que fica. A Tradição é o fermento que prossegue.
O passado é a paisagem que passa. A Tradição é a corrente que continua.
O passado é a mera estratificação dos fatos históricos já realizados. A Tradição é a dinamização das condições propulsoras de novos fatos.
O passado é estéril, intransmissível. A Tradição é essencialmente fecundadora e energética.
O passado é a flor e o fruto que findaram. A tradição é a semente que perpetua.
O passado é o começo, as raízes. A Tradição é a seiva circulante, o prosseguimento.
O passado explica o ponto de partida de uma comunidade histórica. A tradição condiciona o seu ponto de chagada.
O passado é a fotografia dos acontecimentos. A tradição é a cinematografia dos mesmos.
Enfim: Tradição é tudo aquilo que do passado não morreu”.

No entanto, aquela etapa é essencial para a compreensão do que vem ocorrendo com a cultura desde os anos 90 do século passado. Ou seja: ciclicamente, de trinta em trinta anos, ao ensejo de alguma rebordosa mundial ou nacional, e havendo clima de abertura para as indagações do espírito, termina surgindo algum "ismo" relacionado com a Tradição.
Assim foi com o gauchismo dos anos 90. Com o regionalismo dos anos 20. Com o tradicionalismo dos anos 50. Com o nativismo de agora. E sou capaz de jurar que lá pelo ano 2010 surgirá uma espécie de telurismo antinuclear ou cibernético, resultante da inquietação de analistas de sistemas em conluio com artistas plásticos, incluindo cartunistas e comunicadores visuais.
É claro que, de acordo com cada época, modifica-se a dinâmica e o campo de ação. Mas, no fundo, é tudo a mesma coisa: expressão de amor à gleba e respeito ao homem rural".


NATIVISMO

“Os valores do culto a Tradição mais característica do Rio Grande do Sul são o nativismo, a coragem, a hospitalidade, a honra, o respeito a palavra empenhada, o cavalheirismo, alem de outros.
Assim vê-se desde logo que o Nativismo não é um culto, como a Tradição, mas um dos valores desse culto. Nativismo é o amor que a pessoas tem pelo chão onde nasceu, onde é nato.” Antonio Augusto Fagundes

“é tudo aquilo que é próprio do local de nascimento, natural, não adquirido e que conserve as características originais. É o sentimento de defesa e amor ao pago nativo...” Odalgil Nogueira da Camargo

“é tudo aquilo que é próprio do lugar nato, (de naturalidade), portanto não é adquirido, mas conserva as características naturais (originais)” José Estivalet
Edilberto Teixeira diz que "nativismo é a qualidade do nativista. É aquele que é contrário, que é infenso a estrangeiros. Tudo o que é próprio do lugar de nascimento, que é ingênito, natural, não adquirido. Em filosofia, nativismo é a teoria das idéias inatas, independentes da experiência".
Antonio Augusto Fagundes afirma que é comum chamar-se de nativismo a arte que nasce da terra, que fala, que canta, que enfoca e que valoriza as coisas da terra dizendo-se: poesia nativista, canção nativista, música nativista, muito embora saibamos que a expressão correta para designar a corrente artística que valoriza os temas da terra seja "regionalista gaúcha".


TRADICIONALISMO

“Tradição – um culto – e Nativismo – um sentimento – existem no mundo todo. Agora, Tradicionalismo só existe no Rio Grande do Sul. Quando existe fora daqui, é o gaúcho, que estende muito longe seus braços, para estreitar junto ao coração, em todas as querências, os gaúchos, as gaúchas e seus descendentes.
Tradição e Nativismo podem andar com uma única pessoa. Existem no singular. Tradicionalismo, não: é obrigatoriamente associativo, coletivo. Tradicionalismo é um movimento cívico-cultural. É a tradição em marcha, resgatando valores que são validos não por serem antigos, mas por serem eternos, exatamente os valores que trouxeram o Rio Grande e o gaúcho do passado para o presente, projetando-o no futuro”. Antonio Augusto Fagundes

“... é a tradição em marcha, passando de geração a geração. É a arte de colocar em movimento as pecas de uma tradição. São os meios pelos quais pelos quais a tradição passa de pai para filho. É um movimento gaúcho que busca conservar as boas coisas do passado através do culto e da vivencia.” Odalgil Nogueira da Camargo

“Tradicionalismo é o movimento popular que visa auxiliar o Estado na consecução do bem-coletivo, através de ações que o povo pratica (mesmo que não se aperceba de tal finalidade) com o fim de reforçar o núcleo de sua cultura; graças ao que a sociedade adquire maior solidez e o individuo adquire maior tranqüilidade na vida em comum” Luiz Carlos Barbosa Lessa
Glaucus Saraiva assim define:
"Tradicionalismo é um sistema organizado e planificado de culto, prática e divulgação desse todo que chamamos Tradição. Obedece a uma hierarquia própria, possui um alto programa contido em sua Carta de Princípios, que deve, na medida do possível, realizar e cumprir”.
“Tradição, comparativamente, é o campo das culturas gauchescas. Tradicionalismo é a técnica de criação, semeadura, desenvolvimento e proteção das suas riquezas naturais, através de núcleos que se intitulam "Centros de Tradições Gaúchos."
Segundo Edilberto Teixeira, "o termo se diversificou e se define como um Movimento alicerçado em nossos CTGs(Centros de Tradições Gaúchas), tornando-se assim uma fonte de cultura”

TRADICIONALISTA

O tradicionalista é um nativista que acredita na forca da tradição e, por isso, se perfila como se fora um soldado, na defesa e difusão de valores, princípios e crenças que constituem a própria historia do gaúcho.
O tradicionalista é o militante do tradicionalismo na defesa da tradição gaúcha, que apresenta, entre outras, os seguintes valores básicos: o espírito associativo, o nativismo, o respeito a palavra dada, a defesa da honra, a coragem, o cavalheirismo, a conduta ética,o amor a liberdade, o sentimento de igualdade, a politização e o senso de modernidade. (valores citados por Jarbas Lima, in “O sentido e o alcance social do tradicionalismo”).
Tradicionalista é aquele que pugna pela conservação das idéias e valores morais transmitidos de geração em geração, ao longo da nossa bela história rio-grandense. Tradicionalista é, pois uma pessoa que preza as tradições, sem ser retrógrado nem saudosista.


CULTURA

Cultura é um sistema de atitudes e modos de agir, costumes e instituições, valores espirituais e materiais de uma sociedade.
Barbosa Lessa ensina que a cultura de qualquer sociedade se compõe de duas partes: o núcleo e as alternativas. O núcleo é constituído pelo Patrimônio Tradicional, onde se concentram os hábitos, princípios morais, valores, associações e reações emocionais partilhadas por todos os membros de determinada sociedade, ou por todos os integrantes de determinada categoria de indivíduos. Este cerne cultural da aos indivíduos a unidade psicológica essencial ao funcionamento da sociedade.
Cercando o núcleo, existe uma zona instável, denominada Alternativas, constituída por elementos culturais, que atingem somente alguns membros de uma sociedade. Essa zona de Alternativas tem a capacidade de fazer a cultura crescer e aperfeiçoar-se, porem se o núcleo, o Patrimônio Tradicional, for fraco, haverá uma invasão das alternativas que destruirão o núcleo, causando confusão social, pois que haverá, fatalmente, a perda das referencias e dos indicativos de identidade daquela sociedade.


FOLCLORE

Foi Willian John Thoms, um arqueólogo inglês, o criador do termo, da palavra Folk –lore, aportuguesada para folclore, que significa folk = povo e lore = saber, conhecimento. Em 22 de agosto de 1846, a revista The Atheneun, de Londres, publicou a carta de Willian, na qual era proposta a criação da palavra, para designar "os estudos dos usos, costumes, cerimônias, crenças, romances, refrões, superstições, etc”. Portanto o dia 22 de agosto foi institucionalizado como dia do folclore, no mundo.

Folclore é a ciência que estuda a cultura espontânea do grupo social, que estuda todas as manifestações espontâneas do povo que tem escrita (povo gráfico), tanto do ponto de vista material, quanto espiritual.

Como o próprio nome sintetiza, é a ciência do povo, são as tradições, os costumes, as crenças populares, o conjunto de canções, as manifestações artísticas, enfim, tudo o que nasceu do povo e foi transmitido através das gerações.

O fato folclórico define–se como parcela do conhecimento humano que se transmite no tempo e no espaço, de geração a geração, de camada cultural a camada cultural, sem ensino formal (em escolas ou livros).

Por isso, podemos afirmar, que o Folclore é "a ciência que estuda o homem nas suas manifestações de cultura espontânea, quer sejam materiais, quer sejam espirituais".

No Brasil, considera-se Folclore o "estudo da cultura espontânea do povo civilizado dos campos e das cidades."


GAUCHISMO

Falando em gauchismo, em "Caráter Cíclico do Tradicionalismo", Barbosa Lessa escreveu:
"A primeira etapa foi relativamente tímida. Brotou quando da passagem do Império para o sistema republicano. Foi contemporânea dos sangrentos episódios de 1893. Começou por esparsas contribuições, aqui e ali, de cidadãos interessados em recompor e estado e afirmar a viabilidade do republicanismo. Animava-os, indiscutivelmente, o espírito de solidariedade e a sinceridade cívica”.
O gauchismo foi uma espécie de Liga de Defesa Nacional em âmbito sul-rio-grandense e pretendia, fundamentalmente, a comemoração das datas cívicas. Chegou a se corporificar em meia dúzia de agremiações, que, ou tiveram vidas efêmeras ou, ao cabo, descambaram para a vala comum dos clubes recreativos”.

Edilberto Carvalho diz: "Gauchismo é a qualidade do gaúcho, é a expressão típica do seu linguajar. O que lhe é próprio, seus ditos, comparações e suas "largadas”.


REGIONALISMO

Regionalismo é uma corrente artística que se inspira nos temas da terra. Assim a natureza e o homem da região com seus valores e cultura típicos constituem-se em inspiração para que o artista realize o seu trabalho. (Paulo Cortes)

Edilberto Teixeira, em sua publicação diz:
"Regionalismo é tudo aquilo que se diz respeito a uma região, termo, locução ou costumes próprios daqueles que vivem nessa região. E regionalista é aquele que defende os interesses regionais".

Salvador Ferrando Lamberty, em sua obra ABC do Tradicionalismo, ao definir Regionalismo Gaúcho diz: "é a corrente artística voltada aos temas da terra e se inspira nos elos regionais. É o sentimento expresso na guarda de um patrimônio local; é a expressão do valor cultural e artístico de uma região".


O GAÚCHO

A origem do termo GAUCHO não é pacifica, mas há indicativos muito fortes que apontam historicamente o significado da palavra.
Remotamente, na época conhecida como a “idade do couro”, o habitante do pampa era chamado de “guasca”. O termo muitas vezes citado como se fora pejorativo, recebe de Machado de Assis (in Quincas Borba) significado de elogio. Ao referir-se a uma filha do Rio Grande, diz: “E uma guasca de primeira ordem”. Guasca correspondia a uma interjeição elogiosa que era pronunciada como um titulo de hombridade e destemor. Fala-se em guasca largado como quem dissesse quebra largado, torena, monarca das cochilhas. Como quem diz – Gaúcho.

Pouco mais tarde, no século XVIII surge o termo “gaudério”, tanto no território brasileiro quanto no castelhano. O gaudério, tido como homem sem lei nem rei, que “morava na sua camisa, debaixo do seu chapéu”, mantinha-se num equilíbrio instável entre o índio e o branco. A sua atividade marginal estendeu-se por mais de um século de história do pampa, formando com os “coureadores” e “changadores” uma espécie de associação de rapinagem mais ou menos organizada que chegou a constituir grave problema para os guardas volantes da campanha.

O termo “gaúcho”, surgiu, provavelmente, no último quartel do século XVIII e aparece como sinônimo de “gaudério”. Emílio Coni cita um parecer propondo a criação de uma partida volante para que “persiguiese y arrestase a los muchos malévolos, ladrones, desertores y peones de todas castas, que llaman Gauchos o Gauderios ...”.

O sentido pejorativo da palavra gaúcho, numa e noutra banda, mantém-se quase inalterado, até meados do século XIX. Azara, Saint-Hilaire, Arsène Isabele, Alcide D’Orbigny, todos são concordes em apresentá-los como homens sem lei e nem rei, campistas perturbadores da paz, vagabundos que alarmavam os governantes e ocupavam a polícia.

Um fator importante que forma a estrutura do ambiente em que vivia o “gaúcho”, da metade do século XVIII até a metade do século XIX, estava a prática de distribuição de sesmarias. Augusto Meyer, ao se referir ao assunto afirma: “A sesmaria, área que podia variar entre dez mil e treze mil hectares, beneficiando uma insignificante minoria de privilegiados, na prática, revelou-se um prêmio às formas improdutivas do trabalho, com a máxima vantagem individual, em detrimento das garantias médias do trabalho assalariado” (1957).

Se há um caso na história em que a explicação por meio de fatores econômicos e sociais, tem perfeito cabimento, este é o caso do gaúcho primitivo, durante o período colonial. É resultado daquele complexo cultural representado pelo cavalo, gado alçado e valorização do couro, movendo-se num meio de pampas abertas, onde as raias avançavam e recuavam de acordo com os entendimentos entre os reis portugueses e espanhóis.

Os gaúchos passaram a ser chamados a integrar as tropas dos comandantes militares locais que, de estancieiros, travestiam-se em coronéis, comandando a resistência contra as tentativas de invasão, ora dos espanhóis, ora dos portugueses.

Aos poucos, o vocábulo “gaúcho” adquiriu outro sentido, completamente oposto ao do original. Aqueles homens rudes, valentes, independentes, amantes da liberdade, exímios cavaleiros, eram também bons soldados, empenhados peões, até bons agregados, bastava que lhes dispensasse respeito e um pouco de compreensão.

Hermann Burmeister, em sua obra Reise durch die la Plata-Staaten (1861), assim descreve o gaúcho: “Erro grave é considerar os Gaúchos como gente grosseira ou brutal, ou, sem mais rodeios, como simples salteadores e bandidos; longe disso, o que os caracteriza é principalmente uma viva suscetibilidade e um inegável sentimento cavalheiresco, que logo os leva a ter em conta de superior toda pessoa mais ilustrada, ou de mais alta categoria social, que os tratar com deferência. Pelo contrário, a altivez e grosseria provocam de sua parte uma repulsa imediata”.

Desde a época da Revolução Farroupilha (1835-45) e, especialmente depois da Guerra do Paraguay (1860-65) a palavra gaúcho passou a significar o homem do campo, ligado a atividade pastoril, de maneira específica e a identificar os nascidos no Rio Grande do Sul, de forma genérica. A mudança ocorrida não foi fruto de lei ou de imposição, mas resultado da evolução natural da sociedade e da compreensão de que o homem é parte integrante do ambiente em que vive e sua condição muito se deve aos fatores a que está submetido.

Poderíamos resumir a trajetória do vocábulo “gaúcho”, dizendo que na época dos capitães-generais e primeiros proprietários era ladrão, vagabundo e coureador; para os capitães de milícias e comandantes de tropas empenhadas na defesa das fronteiras, era bombeiro, chasque, isca para o inimigo; nas guerras da independência do Prata, era lanceiro, miliciano; depois, para os homens da cidade, era o trabalhador rural, homem afeito aos serviços do pastoreio, peão de estância, campeiro destro, sinônimo de guasca ou monarca; finalmente, desde os primórdios do século passado, um nome gentílico, a exemplo de carioca, barriga-verde, capixaba, fluminense.

Cantado em prosa e verso, o gaúcho traz no nome o resumo de uma história, traz na alma a liberdade e no coração o sentimento nativista mais notório entre os brasileiros:

Quem é gaúcho de lei
E bom guasca de tudo,
Ama, acima de tudo,
O bom sol da liberdade

Nos campos de minha terra,
Sou gaúcho sem patrão;
De a cavalo, bem armado,
Minha lei é o coração.

O gaúcho é definido pela literatura gaúcho, como um indivíduo machista, altivo, irreverente, guerreiro, legítimo, é o “centauro dos pampas”.


CTG

O Centro de Tradições Gaúchas e uma associação de pessoas com objetivos culturais, sociais, lúdicas. Diferencia-se de outras associações e clubes por se dedicar ao resgate, valorização e divulgação do folclore e da cultura típica gaúcha, construída ao longo da historia do Estado do Rio Grande do Sul.

O primeiro CTG foi fundado em Porto Alegre, no dia 24 de abril de 1948, com o nome de “35 Centro de Tradições Gaúchas”. Este CTG serve, até hoje, de modelo. Atualmente existem mais de 2000 CTGs, espalhados pelo mundo. Há outros nomes designativos de associações que foram criadas com os mesmos objetivos dos CTGs, tais como: Grupo de Arte Nativa, Centro de Pesquisas Folclóricas, Piquete de Laçadores, Departamento de Tradições Gaúchas (quando criado como departamento de clube ou associação), etc.

Outro diferencial dos CTGs, é a nomenclatura das funções e dos setores da associação: o presidente é chamado “patrão”, o vice-presidente denomina-se “capataz”, o secretario é chamado “sota-capataz”, os departamentos são “invernadas”, etc.

Uma das características importantes dos CTGs é a sua vocação familiar, onde a convivência de gerações se constitui na garantia da transmissão da herança social, chamada de tradição.

Sob o aspecto sociológico os CTGs se constituem na recomposição dos “grupos locais” que se encarregam de manter intacto o “núcleo cultural” que da identidade a uma sociedade.


MTG

O Movimento Tradicionalista Gaúcho possui dois significados:
É a associação ou a federação dos CTGs e entidades afins, criado no dia 28 de outubro de 1966, durante o 12° Congresso Tradicionalista Gaúcho realizado na cidade de Tramandai. A exemplo do MTG do Rio Grande do Sul, foram criados MTGs em outros estados brasileiros, com a mesma finalidade. É o tradicionalismo gaúcho organizado.

Outro significado de MTG é aquele que designa a atividade de pessoas, chamadas tradicionalistas, que se dedicam à preservação, resgate, valorização e divulgação da cultura típica gaúcha e do folclore gaúcho. É a tradição em ação. É a atividade diária e permanente, desenvolvida nos CTGs.

O MTG possui organização semelhante às demais federações, com uma direção central (com abrangência estadual) e setores descentralizados, denominados “Região Tradicionalista” - RT, com abrangência regional. O MTG do Rio Grande do Sul possui 30 RTs.

O MTG é dirigido por um Conselho Diretor (eleito pela Assembléia Geral Eletiva que é integrada pelos representantes das entidades tradicionalistas filiadas, que se reúnem no Congresso Tradicionalista Gaúcho, a cada ano). Os integrantes titulares tem mandato de dois anos e os suplentes de um ano. O presidente do Conselho Diretor é também chamado de Presidente do MTG. Alem do presidente, também são escolhidos quatro vice-presidentes (de administração, de cultura, de finanças e de eventos) dentre os Conselheiros Titulares. Juntamente com estes tradicionalistas eleitos são escolhidos diretores e assessores, formando a Diretoria Executiva. As RTs são dirigidas por coordenadores, eleitos pelas entidades filiadas sediadas na região, e outros diretores e assessores escolhidos pelos coordenadores.

Compõe a estrutura do MTG, a Junta Fiscal (eleita juntamente com o Conselho Diretor, a cada ano) e o Conselho de Ética, composto por representantes do Conselho Diretor, dos coordenadores regionais, pelo Assessor jurídico e pelo Vice-presidente de Administração.

Fonte
Maio de 2007.

Manoelito Carlos Savaris
Historiador.
Presidente da Fundação Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore.

terça-feira, 23 de março de 2010

O NEGRO BONIFÁCIO - João Simões Lopes Neto


O NEGRO BONIFÁCIO

Se o negro era maleva? Cruz! Era um condenado!... mas, taura, isso era, também!
Quando houve a carreira grande, do picaço do major Terêncio e o tordilho do Nadico (filho do
Antunes gordo, um que era rengo), quando houve a carreira, digo, foi que o negro mostrou mesmo
pra o que prestava...; mas foi caipora.
Escuite.
A Tudinha era a chinoca mais candongueira que havia por aqueles pagos. Um cajetilha da
cidade duma vez que a viu botou-lhe uns versos mui lindos — pro caso — que tinha um que dizia
que ela era uma
“............................................... chinoca airosa,
Lindaça como o sol, fresca como uma rosa!...
E o sujeito quis retouçar, porém ela negou-lhe o estribo, porque já trazia mais de quatro pelo
beiço, que eram dali, da querência, e aquele tal dos versos era teatino...
Alta e delgada, parecia assim um jerivá ainda novinho, quando balança a copa verde tocada de
leve por um vento pouco, da tarde. Tinha os pés pequenos e as mãos mui bem torneadas; cabelo
cacheado, as sobrancelhas finas, nariz alinhado.
Mas o rebenqueador, o rebenqueador..., eram os olhos!...
Os olhos da Tudinha eram assim a modo olhos de veado-virá, assustado: pretos, grandes, com
luz dentro, tímidos e ao mesmo tempo haraganos... pareciam olhos que estavam sempre ouvindo..,
ouvindo mais, que vendo...
Face cor de pêssego maduro; os dentes brancos e lustrosos como dente de cachorro novo; e os
lábios da morocha deviam ser macios como treval, doces como mirim, frescos como polpa de
guabiju...
E apesar de arisca, era foliona e embuçalava um cristão, pelo só falar, tão cativo...
No mais, buenaça, sem entono; e tinha de que, porque corria à boca pequena que ela era filha do
capitão Pereirinha, estancieiro, que só ali, nos Guarás, tinha mais de não sei quantas léguas de campo
de lei, povoado, O certo é que o posto em que ela morava com a mãe, a sia Fermina, era um mimo;
tinha de um tudo: lavoura, boa cacimba, um rodeíto manso; e a Tudinha tinha cavalo amilhado, só do
andar dela, e alguma prata nos preparos.
Parecenças, isso, tinha, e não pouco, com a gente do capitão...
O velho, às vezes, ia por lá, sestear, tomar um chimarrão...
Pois para a carreira essa, tinha acudido um povaréu imenso.
E ela veio, também, com a velha. Velha, é um dizer, porque a sia Fermina ainda fazia um
fachadão...
E deu o caso que os quatro embeiçados também vieram, e um, o mais de todos, era o Nadico.
E sem ninguém esperar, também apareceu o negro Bonifácio.
É assim que o diabo as arma...
Escuite.

O negro não vinha por ela, não; antes mais por farrear, jogar e beber: ele era um perdidaço pela
cachaça e pelo truco e pela taba.
E bem montado, vinha, num bagual lobuno rabicano, de machinhos altos, peito de pomba e
orelhas finas, de tesoura; mui bem tosado a meio cogotilho, e de cola atada, em três tranças, bem
alto, onde canta o galo!...
E na garupa, mui refestelada, trazia uma chirua, com ar de querendona...
Eta! negro pachola!
De chapéu de aba larga, botado no cocuruto da cabeça e preso num barbicacho de borlas
morrudas, passado pelo nariz; no pescoço um lenço colorado, com o nó republicano; na cintura um
tirador de couro de lontra debruado de tafetá azul e mais cheio de cortados do que manchas tem um
boi salino!
E na cintura, atravessado com entono, um facão de três palmos, de conta.
Na pabulagem, andava sozinho: quando falava, era alto e grosso e sem olhar para ninguém.
Era um governo, o negro!
Ora bem; depois de se mostrar um pouco, o negro apeou a chirua e já meio entropigaitado
começou a pastorejar a Tudinha... e tirando-se dos seus cuidados encostou o cavalo rente no dela e aí
no mais, sem um ¾ Deus te salve! ¾sacudiu-lhe um envite para uma paradita na carreira grande. A
piguancha relanceou os seus olhos de veado assustado e não se deu por achada; ele repetiu o convite
da aposta e ela então ¾ depois explicou ¾ de puro medo aceitou, devendo ganhar uma libra de
doces, se ganhasse o tordilho. O tordilho era o do Nadico.
Ficou fechado o trato.
O negro ¾ era ginetaço! ¾ deu de rédea no lobuno, que virou direito, nos dois pés, e já lhe
cravou as chilenas, grandes como um pires, e saiu escaramuçando, meio ladeado!
Os quatro brancos se olharam… o Nadico estava esverdeado, como defunto passado...
A Tudinha pegou logo a caturritar, e a cousa foi passando, como esquecida.
Mas, quê!... o negro estava jurado...
Escuite.
Entraram na cancha os parelheiros, todos dois pisando na ponta do casco, mui bem compostos e
lindos, de se lavar com um bochecho d’água.
Fizeram as partidas; largaram; correram: ganhou, de fiador, o do Nadico, o tordilho.
Depois rompeu um vozerio, a gente desparramou-se, parecia um formigueiro desmanchado; as
parcerias se juntaram, uns pagavam, outros questionavam.... mas tudo se foi arreglando em ordem,
porque ninguém foi capaz de apontar mau jogo.
E foi-se tomar um vinho que os donos da carreira ofereceram, como gaúchos de alma grande,
principalmente o major Terêncio, que era o perdedor.
E a Tudinha lá foi, de charola.
No barulho das saúdes e das caçoadas, quando todos se divertiam, foi que apareceu aquele
negro excomungado, para aguar o pagode. Esbarrou o cavalo na frente do boliche; trazia na mão um
lenço de sequilhos, que estendeu a Tudinha: havia perdido, pagava...

A morocha parou em meio um riso que estava rindo e firmou nele uns olhos atravessados,
esquisitos, olhos como pra gente que já os conhecesse.., e como sentiu que o caso estava malparado,
para evitar o desaguisado, disse:
¾ Faz favor de entregar à mamãe, sim?!...
O negro arreganhou os beiços, mostrando as canjicas, num pouco caso e repostou:
¾ Ora, misturada!..., eu sou teu negro, de cambão!... mas não piá da china velha! Toma!
E estendeu-lhe o braço, oferecendo o atado dos doces.
Aqui, o Nadico manoteou e no soflagrante sopesou a trouxinha e sampou com ela na cara do
muçum.
Amigo! Virge’ nossa senhora!
Num pensamento o negro boleou a perna, descascou o facão e se veio!...
O lobuno refugou, bufando.
Que peleia mais linda!
Vinte ferros faiscaram; era o Nadico, eram os outros namorados da Tudinha e eram outros que
tinham contas a ajustar com aquele tição atrevido.
Perto do negro Bonifácio, sentado sobre um barril, sem ter nada que ver no angu, estava um
paisano tocando viola: o negro ¾ pra fazer boca, o malvado! ¾ largou-lhe um revés, tão bem
puxado, que atorou os dedos do coitado e o encordoamento e afundou o tampo do estrumento!...
Fechou o salseiro.
O Nadico mandou a adaga e atravessou a pelanca do pescoço do negro, roçando na veia artéria;
o major tocou-lhe fogo, de pistola, indo a bala, de refilão, lanhar-lhe uma perna.., o ventana quadrava
o corpo, e rebatia os talhos e pontaços que lhe meneavam sem pena.
E calado, estava; só se via no carão preto o branco dos olhos, fuzilando...
Ai!...
Foi um grito doido da Tudinha... e já se viu o Nadico testavilhar e cair, aberto na barriga, com a
buchada de fora, golfando sangue!...
No meio do silêncio que se fez, o negro ainda gritou:
¾ Come agora os meus sobejos!…
Depois, roncou, tal e qual como um porco acuado... e então, foi uma cousa bárbara!...
Em quatro paletadas, desmunhecando uns, cortando outros, esgaravatando outros, enquanto o
diabo esfrega o olho, o chão ficou estivado de gente estropiada, espirrando a sangueira naquele
reduto.
É verdade também que ele estava todo esfuracado: a cara, os braços, a camisa, o tirador, as
pernas, tinham mais lanhos que a picanha de um reiúno empacador: mas não quebrava o corincho, o
trabuzana!
Aquilo seria por obra dalguma oração forte, que ele tinha, cosida no corpo.
A esse tempo, era tudo um alarido pelo acampamento; de todos os lados chovia gente no lugar
da briga.
A Tudinha, agarrada ao Nadico, com a cabeça pousando-lhe no colo, beijando-lhe ela os olhos
embaciados e a boca já morrente, ali, naquela hora braba, à vista de todo o mundo e dos outros seus
namorados, que se esvaíam, sem um consolo nem das suas mãos nem das puas lágrimas, a Tudinha

mostrava mesmo que o seu camote preferido era aquele, que primeiro desfeiteou e cortou o negro,
por causa dela...
Foi então que um gaúcho gadelhudo, mui alto, canhoto, desprendeu da cintura as boleadeiras e
fê-las roncar por cima da cabeça… e quando ia a soltá-las, zunindo, com força pra rebentar as
costelas dum boi manso, e que o negro estava cocando o tiro, de facão pronto pra cortar as sogas...
nesse mesmo momento e instante a velha Fermina entrou na roda, e ligeira como um gato, varejou no
Bonifácio uma chocolateira de água fervendo, que trazia na mão, do chimarrão que estava
chupando...
O negro urrou como um touro na capa...; a rumo no mais avançou o braço, e fincou e
suspendeu, levantou a velha, estorcendo-se, atravessada no facão até o esse...; ao mesmo tempo,
mandado por pulso de homem um bolaço cantou-lhe no tampo da cabeça e logo outro, no costilhar, e
o negro caiu, como boi desnucado, de boca aberta, a língua pontuda, mexendo em tremura uma perna,
onde a roseta da chilena Unia, miúdo...
Patrício, escuite!
Vi então o que é uma mulher rabiosa...: não há maneia nem buçal que sujeite: é pior que
homem!...
A Tudinha já não chorava, não; entre o Nadico, morto, e a velha Fermina estrebuchando, a
morocha mais linda que tenho visto, saltou em cima do Bonifácio, tirou-lhe da mão sem força o
facão e vazou os olhos do negro, retalhou-lhe a cara, de ponta e de corte... e por fim, espumando e
rindo-se, desatinada ¾ bonita, sempre! ¾ ajoelhou-se ao lado do corpo e pegando o facão como
quem finca uma estaca, tateou no negro sobre a bexiga, pra baixo um pouco ¾ vancê compreende?...
¾ e uma, duas, dez, vinte, cinqüenta vezes cravou o ferro afiado, como quem espicaça uma cruzeira
numa toca... como quem quer estraçalhar uma causa nojenta... como quem quer reduzir a miangos
uma prenda que foi querida e na hora é odiada!...
Em roda, a gauchada mirava, de sobrancelhas rugadas, porém quieta: ninguém apadrinhou o
defunto.
Nisto um sujeito que vinha a meia rédea sofrenou o cavalo quase em cima da gente: era o juiz
de paz.
Mais tarde vim a saber que o negro Bonifácio fora o primeiro a... a amanonsiar a Tudinha; que
ao depois tomara novos amores com outra fulana, uma piguancha de cara chata, beiçuda; e que
naquele dia, para se mostrar, trouxera na garupa a novata, às carreiras, só de pirraça, para encanzinar,
para tourear a Tudinha, que bem viu, e que apesar dos arrastados de asa daquela moçada e sobretudo
do Nadico, que já a convidara para se acolherar com ele, sentira-se picada, agoniada da desfeita que
só ela e o negro entendiam bem...; por isso é que ela ficou como cobra que perdeu o veneno...
Escuite.
Até hoje me intriga, isto: como uma morena, tão linda, entregou-se a um negro, tão feio?...
Seria de medo, por ele ser mau?... Seria por bobice de inocente?... Por ele ser forçudo e ela,
franzina?... Seria por...

Que, de qualquer forma, ela vingou-se, isso, vingou-se...; mas o resto que ela fez no corpo do
negro? Foi como um perdão pedido ao Nadico ou um despique tomado da outra, da piguancha
beiçuda?...
Ah! mulheres!...
Estancieiras ou peonas, é tudo a mesma cousa... tudo é bicho caborteiro...; a mais santinha tem
mais malícia que um sorro velho!...

POESIA - REZA CHUCRA

REZA CHUCRA
Alcy Cheuiche

Perdoe Virgem Maria
Por lhe tomar atenção,
Envolvendo um coração
Tão puro e tão adorado.
Nesta miséria qu'eu trago,
Que arrasto, é melhor que diga,
Por esta terra inimiga,
Onde nunca fui amado.

A Senhora bem se lembra
Que nem sempre foi assim...

Embora não fosse em mim
Que a fortuna tinha ninho,
Eu bem que tive carinho
E uma mulher cuidadosa
Que me deixava de jeito.
Um lenço branco no peito,
A bombacha bem limpinha,
Quando para a igreja eu vinha,
No tempo qu'eu fui feliz.

Agora olhe pra mim.
Veja esta roupa rasgada
Qu'eu carrego com vergonha.
Parece que a gente sonha,
Quando vê que não é nada
Prá dominar o seu vício
Quando eu morava no pago
As vezes tomava um trago
No mais prá molhá a garganta
E agora querida Santa,
Até virei cachaceiro,
Depois que bebo o primeiro
Não há nada que me pare.
E depois até que eu sare
Vem me subindo a cabeça
Toda essa vida passada
E o rosto da minha amada
Enxergo assim como em sonho...

Ó minha Nossa Senhora,
Escute ao menos agora
Um pedido que le faço.

Sei que a morte já me ronda
Pela porteira do rancho...
Até já vejo os caranchos
Rodeando em volta de mim.

Reconheço o meu pecado,
E quando tiver chegado
Lá na fronteira do céu
Vão me apontar outro rumo:
- Ovelha com mancha preta
Bota a marca na paleta
Que só serve prá o consumo. -

Prá mim não há mais remédio,
Não é prá mim o pedido.
Sou índio chucro vencido
Pelo vício aqui do povo.

Eu peço é pelo meu filho,
Que abandonei lá no pago
Quando a sina de índio vago
Me arrebatou da querência.

Proteja a sua inocência...
Não deixe que o coitadinho
Siga este duro caminho
Que está seguindo seu pai.

Que fique por toda a vida
Grudado naquele chão,
Que resista a tentação
Com toda a força de macho,
Que não morra como guacho
Quando pará o coração.

sexta-feira, 19 de março de 2010

INICIANDO AS ATIVIDADES...

BAILE DE INÍCIO DAS ATIVIDADES 2010


O CTG Sentinelas do Pago convida os amigos para dia 24/04/2010, participar do Baile de Início das Atividades 2010. Esta festa será animada pelo grupo TRANCO DE GALPÃO.
Os convites custão R$ 10,00 e estão à venda no Galpão ou pelos fones: 8568.6848 / 8420.4678. Ou ainda com a patronagem...

Esperamos vocês para mais esta grande festa!!!

terça-feira, 16 de março de 2010

PAIXÃO CÔRTES


O folclorista Paixão Côrtes, personagem decisivo da cultura gaúcha e do movimento tradicionalista no Rio Grande do Sul é o 16o entrevistado de Passado Presente, série que revista a formação do pensamento crítico contemporâneo no Estado

É realmente uma pena que o jornal não tenha som, porque a entrevista que se vai ler ganharia muito se fosse acompanhada do verbo vivo do entrevistado. João Carlos D'Ávila Paixão Côrtes é uma figura inesquecível em vários sentidos, incluindo o sentido da audição: as pausas, as ênfases, as exclamações, as suspensões, os "Bá" alongados, a entoação para acompanhar a referência a uma antiga canção, tudo isso é irrepetível na folha de papel.

Um pouco assim, inapreensível, é o valor e o alcance da obra de nosso entrevistado. Nascido a 12 de julho de 1927, em Santana do Livramento, de pai agrônomo e mãe dotada de boas qualidades musicais, Paixão Côrtes parece ter sintetizado essas duas marcas - formou-se em Agronomia também, e é artista também, não do canto mas da dança - e ao mesmo tempo parece haver ultrapassado os limites do que se poderia esperar de alguém com sua história. Por quê? Porque ele é um dos sujeitos diretamente responsáveis pelo nascimento da atual voga gauchesca. "Um dos" é muito pouco: Paixão Côrtes é um dos dois formuladores e animadores decisivos do movimento tradicionalista gaúcho - o outro é o falecido Luiz Carlos Barbosa Lessa, a quem nosso entrevistado se refere como "o Lessa", um sujeito quieto, com pendor literário e intelectual, de alguma maneira o oposto complementar de Paixão, mais arrebatado, mais homem de ação e iniciativa.

A estrada foi longa e cheia de percalços. Começa, talvez, na vivência campeira. Segue na experiência de peão, desempenhada todas as férias, em contraponto com a vida escolar urbana em Santana, Uruguaiana e Porto Alegre, sucessivamente. Continua, quem sabe, na dura passagem em que perde o pai e precisa trocar o colégio privado pelo público, o diurno pelo noturno, a vida relativamente inconseqüente pelo trabalho. Deslancha, a partir de 1947, quando se junta com amigos igualmente interioranos e saudosos da vida agauchada (entre os quais Lessa) e com eles literalmente inventa uma tradição: a de fazer vigília de um fogo tirado à Pira da Pátria, que arderá dali por diante pela imaginária, afetuosa, desejada "pátria" sul-rio-grandense.

Paixão Côrtes e Barbosa Lessa partem para a pesquisa de campo, para recuperar traços de cultura popular local eventualmente sobreviventes à avalancha da cultura norte-americana, quer dizer, estadunidense, que, vitoriosa na II Guerra, cobrou um preço alto das neocolônias. Paixão e Lessa, expressando ativamente o mal-estar do momento, partiram para a ação, viajando pelo Interior para salvar o passado da intensa voragem novidadeira. Estava sendo gestado o lado cultural-popular do tradicionalismo, antes mesmo de a palavra "folclore" entrar no discurso de todo mundo.

Paixão Côrtes não se limitou a isso. Serviu de modelo para a estátua do Laçador e foi garoto-propaganda televisivo, nos primórdios do veículo, vestido à gaúcha quando isso era ainda uma esquisitice. Organizou o 35 CTG, liderou grupos de música e dança, viajou à Europa como artista, fez e aconteceu. Poderia estar calmamente, agora, curtindo as glórias de sua intensa vida. Mas não: parece mais ativo que nunca, insatisfeito com certos aspectos do tradicionalismo. Ele diz que a coisa está muito amarrada, embretada, com pouca variação.

A sensação que fica é de que mais três dias de entrevista ainda não seriam suficientes para ouvir tudo o que ele tem para contar. Mas o espaço é finito, e o foco desta entrevista, realizada em sua casa, em Porto Alegre, foi o período de gestação deste fenômeno absolutamente impressionante que é o mundo do tradicionalismo, dos CTGs, da identidade cultural gaúcha, que ele ajudou a estabelecer. Vida e obra associadas fortemente, as de Paixão Côrtes, um sujeito da maior relevância para entender nosso tempo.

"Me chamavam de guasca. Eu não me ofendia"

Genaro Joner, banco de dados/ZH - 18/10/99

Na 16a entrevista da série Passado Presente, que revisa a formação de figuras proeminentes da cultura gaúcha, o folclorista Paixão Côrtes recorda como se deu a criação do movimento tradicionalista: "Eu ia pilchado para o colégio. Me chamavam de guasca de fora. Eu não me ofendia. Sabia o que eu era".

Cultura - O senhor nasceu na zona rural?
Paixão - Não, nasci na cidade. A casa de meu avô ficava numa das principais ruas de Santana. Meu pai alugou a casa ao lado. na esquina e abriu uma parede, fazendo uma ligação entre as casas. Era praticamente uma casa só.

Cultura - Era uma família grande?
Paixão - Não, nós somos dois irmãos e uma irmã de criação. Meu avô materno era de Santana, Rodrigues D'Ávila; meu avô paterno era de Bagé, Paixão Côrtes. Meu avô materno sempre esteve ligado ao campo, tinha duas ou três estâncias no Interior, e eu me criei dentro delas. Desde pequeno, eu ia a essas estâncias, acompanhando meu pai, que era agrônomo.

Cultura - Ele tinha formação universitária?
Paixão - Ele se formou em Porto Alegre e depois estudou nos Estados Unidos por cinco anos.

Cultura - Isso devia ser bem raro na geração dele, não?
Paixão - Sim, era excepcional. Ele se formou em Porto Alegre, depois ficou cinco anos nos Estados Unidos. O bom foi que ele não teve apenas a vivência universitária, ele fez de tudo, foi peão de estância, conheceu bem a vida, como é o comum nos Estados Unidos. Aqui é que tem essa coisa de separação social. Ele trouxe essa bagagem norteamericana. Até na mesa se sentia a diferença, tinha doce e salgado ao mesmo tempo, a carne era quase crua, sucos, essa coisa do breakfast. Ele era funcionário da Secretaria da Agricultura e prestava assistência técnica naquela área de Santana do Livramento. Eu ia junto.

Cultura - Então a sua infância se divide entre cidade e campo sem distinção?
Paixão - Exatamente. Meu pai tinha uma chácara, um sítio, então permanentemente a gente ia para lá e fazia grandes festas. Ficava-se dois dias carneando, festeando, aí quando terminava um assado já carneavam de novo, lá vinha mais gente, e sesteavam debaixo das árvores mesmo, e seguia o baile. Era uma coisa.

Cultura - O seu avô também tocava?
Paixão - Sim, o João Pedro Rodrigues D'Ávilla. Eu tenho a gaita dele, de oito baixos. Sempre ouvi música em casa, era natural, nunca precisei procurar por isso.

Cultura - Nenhum dos ramos estava metido em política?
Paixão - Não. Meu pai tinha um grande poder de coordenação. Ele era muito benquisto na área rural. Então, nas lutas sociais, mais rico, menos rico, mais pobre, menos pobre, ele sempre foi um coordenador, um mediador. Era respeitado.

Cultura - O senhor fica em Santana do Livramento até quando?
Paixão - Até 1939, 1940. Eu tinha uns 12 anos. Fomos morar em Uruguaiana, porque meu pai foi nomeado diretor da Estação Experimental, um posto zootécnico bastante avançado.

Cultura - E a diferença entre as cidades?
Paixão - Em Santana tinha uma intimidade familiar, e em Uruguaiana meu pai ocupava um cargo importante do governo, então tinha uma outra ótica. Também por lá, ele me levava por tudo. Aprendi muito com ele me dizendo: "Olha lá, observa aquilo, tá vendo aquilo outro?".

Cultura - Quando o senhor veio a Porto Alegre pela primeira vez?
Paixão - Em 1935. Teve a exposição do centenário da Revolução Farroupilha, no que hoje é o Parque Farroupilha, e o meu pai era o responsável pela exposição da pecuária. Fez seleção dos grandes animais, etc. E eu andava com ele por tudo.

Cultura - E qual foi o impacto de Porto Alegre para o senhor?
Paixão - Teve um impacto, por exemplo, pelo bonde. Nós, na fronteira, chamávamos bonde o que é ônibus, na verdade.

Cultura - Fez o primário em Santana?
Paixão - Fiz o primário em Santana, com os maristas, e depois fui para Uruguaiana, onde vem o choque, porque fui estudar no Colégio União, que era protestante, metodista. Meu pai queria que eu tivesse uma visão diferente das coisas. Ele via no colégio americano uma nova visão, um outro trato de responsabilidade, de ensino, de exigência.

Cultura - 0 senhor fez primeira comunhão?
Paixão - Sim, sim. Mas no União havia muita liberdade, sempre houve respeito pelos credos religiosos. Depois vim para o IPA, fazer o Ginásio. E foi muito importante, porque o IPA me abriu outras perspectivas, com o lado da prática de esportes, que sempre gostei muito. Meus pais jogavam tênis, e eu jogava também.

Cultura - Jogar tênis era coisa rara pela região, não?
Paixão - Sim, e eu com cinco, seis anos, com uma raquete daquele tamanho, imagina (pisos).

Cultura - O senhor voltava para as fazendas com freqüência enquanto morava na Capital?
Paixão - Sim, nas férias eu ia para as estâncias de Bagé, de Júlio de Castilhos, de Cruz Alta, e lá de senvolvia toda a atividade normal de um peão de estância. E eram fazendas bem grandes, de duas léguas de campo, serviço puxa do. Uma das sedes da fazenda do meu tio, lá em Cruz Alta. ficava num extremo, e o trabalho a ser leito estava a duas léguas. A gente tinha que acordar às quatro da manhã, ir a cavalo para chegar às sete e meia, mudar o cavalo, e aí começar o serviço. Hoje é que me dou conta como era puxado para um guri de 13, 14 anos, como eu. Era uma fazenda tradicional, tudo no laço, sedes grandes, 2 mil animais, fazendo tropa e tudo. De noite, festeava-se, carneava-se, para, na manhã seguinte, bem cedo, tudo de novo. Serviço mesmo. Então, tudo que falo nas minhas atividades, hoje, não foi de palco que aprendi. Foi muito espontâneo e real.

Cultura - Lembra das músicas que tocavam?
Paixão - Sim. Era o bugio, limpa-banco, havanera, chote, rancheira.

Cultura - Se cantava alguma letra, junto?
Paixão - Sim, as letras que se cantavam eram as décimas. A Décima do Cavalo Baio, O Boi Barroso ...0 Boi Barroso é a mais expressiva manifestação da literatura galponera. Fora isso, umas valsinhas campeiras... (segue-se um improviso cantarolado e coreografado, para riso de todos).

Cultura - Voltando à sua trajetória, o senhor disse que veio estudar no IPA. E depois?
Paixão - Logo depois, quando tinha uns 17 anos, perdi meu pai, o que mudou toda a estrutura familiar. Tive que trabalhar e tudo o mais. Até os 17 eu tinha aquela vivência campeira. Ficava no campo do primeiro ao último dia de férias, na lida bruta, com animais, e doma daqui, e monta dali, e ginetea, e derruba, e cai e se quebra todo, e segue. E diariamente! Não era uma prova. Não tinha essas frescuras de hoje, de concurso e tal.

Cultura - O senhor teve que trabalhar e começou com o quê?
Paixão - Na Secretaria da Agricultura. O meu pai se dava muito bem com todo mundo lá, e como eles souberam da situação, disseram: "Vamos chamar o Paixãozinho", que era como eles me chamavam. Ou então era o "Peruzinho", porque o apelido do meu pai era "Peru". Então comecei no serviço de Ovinotecnia com o doutor Geraldo Veloso Nunes Vieira.

Cultura - E o senhor continuava estudando?
Paixão - Comecei a estudar no Julinho, de noite, em 1946. Terminei o curso científico em 1947. Então me oportunizaram um curso sobre técnicas de classificação de lã, e aí me especializei.

Cultura - Em que ano entra na faculdade?
Paixão - Em 1949, Agronomia, na UFRGS.

Cultura - Faz o curso normalmente.
Paixão - Não muito normalmente. (Risos). Porque aí eu começo a verificar essa ausência de preservação dos valores e da cultura gaúcha. Sou produto da II Guerra Mundial.

Cultura - O que o senhor lembra da guerra?
Paixão - Ah, eu acompanhava, mas nessa época já estava trabalhando e me mandam para o Interior, para o maior centro de comercialização de 1ã, Pelotas. Era um porto de alta responsabilidade. Eu tinha 17, 18 anos. Era tuna pegada violenta. Eu tinha que reformular a técnica toda, com 18 anos, para os velhos comerciantes (risos). Imagina, um guri chegando e dizendo: "Pára tudo!" (risos). Foi uma barra. E eu tinha que fazer o Tiro de Guerra, uma ou duas vezes por semana, à noite. Numa dessas noites, tomei o leite quente e me deitei com a galena nos ouvidos - nem bem rádio era - e ouvi: "Terminou a guerra!". Aí me vesti e saí para a rua, tinha toda a comemoração das pessoas nas ruas. E depois da guerra é que se intensificou a mudança no comportamento brasileiro e rio-grandense, porque os americanos descarregaram todo 0 poder econômico. que mudou tudo.

Cultura - No que o senhor via a chegada americana?
Paixão - Na música, que passou a ser a norteamericana: blues, jazz, as grandes orquestras, Tommy Dorsey, Glenn Miller. No cinema. Nos livros de tradução americana, bem comuns nessa época. O Capitão América. A Coca-Cola. Nem Coca-Cola tinha até então. Houve aí um episódio curioso. Como meu pai tinha revistas americanas, em que aparecia a Coca, eu tinha vontade danada de tomar aquilo. A gente só tomava guaraná. Aí fomos o Lessa e eu tomar Coca-Cola, num barzinho qualquer do Centro. Coloquei no copo, vi aquela coisa meio espumosa, provei. E achei aquele troço meio amargo (risos). Aí diziam que o bom era adocicar a Coca-Cola. Bom, coloquei açúcar e pum! (faz o gesto de explosão, com as mãos). Foi uma das imagens mais esquisitas... (risos)

Cultura - Como é que foi a idéia de fundar o "departamento de tradições" no colégio?
Paixão - Departamento de Tradições Gaúchas do Colégio Júlio de Castilhos. Como eu estava ausente da vivência contínua com a vida na campo que me era familiar, eu comecei a conversar com as pessoas e fui vendo que um era de Cruz Alta, outro de Bagé, não sei mais onde. E aí combinávamos: "Aparece lá para tomar um mate". Tomar mate, naquela época, só dentro de casa. Na rua, nem pensar. Nem na porta de casa. Bombacha ninguém ousava vestir em Porto Alegre.

Cultura - O senhor chegou a se sentir discriminado em Porto Alegre?
Paixão - Discriminado, propriamente, não. Porque quando nós entramos nessa história estávamos firmes: "Queremos isso, e ponto. As conseqüências, a gente vê depois. Tem que dá-le pau, dá-le pau" (risos).

Fernando Gomes/ZH

Paixão Côrtes recorda sua primeira Coca-Cola, aos tempos do pós-guerra:
"Achei meio amargo. Coloquei açúcar e pum"

Cultura - Mas antes de formar o departamento, o senhor chegou a se sentir constrangido pelos hábitos da cidade?
Paixão - Não. Eu tinha uma certa intimidade já com a vida de Porto Alegre. Mas acontece que na época estava se vivendo a ditadura Vargas. Tinha-se medo de ter uma bandeira do Rio Grande do Sul. As bandeiras regionais foram queimadas. Aqui nós escondemos, não queimamos, mas não podíamos usar, mostrar. Meus tios, por exemplo, eram muito pela preservação dos valores, além de serem veladamente contra o Vargas, então a gente ouvia essas coisas: "Cuida com o DIP" (Departamento de Imprensa e Propaganda). E aí isso já se misturava com o comunismo, tudo parecia uma coisa meio nebulosa. Por exemplo, além de não se ver a bandeira, não se cantava o hino. Então o pessoal do Interior se reconhecia no Colégio, se identificava. Começamos a nos encontrar para tomar mate, contar histórias. Coisa de galpão, mas como não tinha galpão, a gente inventava um. E nessa época praticamente não havia literatura regional. O único que ainda sobrevivia era o Vargas Neto. E o Antônio Chimango, é claro. Mas era uma literatura mais rebuscada. não a coisa galponeira a que nós estávamos acostumados. Daí surgiu a nossa idéia.

Cultura - Vocês logo perceberam que o Colégio Júlio de Castilhos poderia abrigar essa iniciativa?
Paixão - Ah, não foi tão simples. O negócio é que eu botava bota e bombacha e ia para a aula. E era aquele comentário só. Eu morava na Sarmento Leite, e o Júlio era o antigo, ainda (na João Pessoa, onde fica hoje a Faculdade de Economia da UFRGS). De noite, eu ia pilchado. Quando fazia frio, ia de poncho. Chovia, botava um chapéu. O pessoal falava: "Olha o guasca de fora", "Olha o guapo". E eu não me ofendia, sabia o que eu era, eles não estavam me ofendendo ao dizer aquilo.

Cultura - E as moças?
Paixão - Não tinha esse contato com as mulheres. Por exemplo, o galpão era só homem. Quando fundamos o 35, era só homem. E o galpão é a célula fundamental da nossa gente. Nós nos criamos ali, em volta, tomando mate. As moças não participavam. Elas estavam em outra. "Miss", "Star", tudo nome americano. E eu fui indo, vestido assim. Foi aí que eu comecei a pensar: por que a gente não faz um núcleo de resistência a essas loucuras norte-americanas e tudo o mais que está aí? Fui bolando, pensando, sozinho. E o Grêmio Estudantil tinha de tudo - esperanto, teatro, e não sei mais o quê. Fui nas reuniões, três sábados seguidos, e era sempre a mesma coisa: "Não sobrou tempo para ti, Paixão". Tudo bem, lá ia eu no outro sábado de novo. Um dia expus a coisa: "Acho que a gente deveria preservar as nossas tradições", etc., preparei um arrazoado. Tinha a Chama da Pátria, no 7 de setembro, data magna da pátria. Foi aí que tive a idéia de tirar uma chama da pira da pátria e levar para o Júlio de Castilhos, fazer uma continuidade da chama da pátria, lá num candeeiro, até o 20 de setembro. E o pessoal dizia: "Mas como?". Então fui na Liga de Defesa Nacional, um órgão muito importante na época, eu conhecia o major Vignolli, apresentei minhas intenções, numa carta que nós tínhamos preparado. Ele me perguntou: "Então, qual é a idéia?". E eu, numa insolência que só hoje percebo, respondi: "Vou tirar uma centelha da pira da pátria para levar para o Colégio Júlio de CastiIhos". Imagina, eu com 18, 19 anos. Aí ele chamou um sujeito: "Ô Pimentel, vem aqui". O sujeito chega e diz: "E aí, Paixãozinho, como é que vai?", todo entusiasmado. Era amigo do meu pai, com quem tinha trabalhado lá em Santa Maria, me conhecia desde pequeno. E perguntou: "O que é que tu estás fazendo aqui?". A idéia era prolongar do 7 de setembro até o 20, da Revolução Farroupilha. Aí eles me perguntaram como é que eu queria fazer isso, se era a cavalo, como é que era e tal. Eu tinha pensado em três cavalos - um com a bandeira do Rio Grande, outro a bandeira do Colégio Júlio de Castilhos e outro com a bandeira do Brasil.

Cultura - E quem eram os seus parceiros?
Paixão - Eram o Ciro Dutra Ferreira e o Fernando Machado Viana. Na saída, o doutor Pimentel me disse que estavam trazendo os restos mortais do Davi Canabarro. Quem traria era o Coronel Canabarro. Eu disse: "Mas ele é casado com uma prima minha!". Enfim eu estava em casa! Então ele me diz: "Estamos com um problema: não arrumamos gaúchos para fazer um costado (guarda de honra). Tu não me arrumas uns gaúchos". E eu: "Para quando?"

Cultura - O que ele queria dizer com "gaúchos"? Por que ele os queria?
Paixão - Porque o Davi Canabarro era uma figura da Revolução Farroupilha, da Guerra do Paraguai, e era para ser trazido para o Pantheon do Rio Grande. Um negócio cívico. Disse para ele que ia tentar, fui falando com um e com outro, fazendo uma exaltação do Canabarro. Convencia um, que convencia outro. Mas aí não tinha arreio. E cavalo? Não tinha. Fui falar com o doutor Pimentel: "Olha, consegui um piquete bom. Gente firme. Mas não temos cavalo, nem arreio". O doutor Pimentel disse que conseguia os cavalos, do Regimento Osório. "E os arreios?", perguntei. "Isso vai ser dificil". Falei para ele: "O senhor me arruma uma caminhonete e dois homens que eu dou um jeito". Cinco horas da manhã saímos em direção a Belém Novo. Foi clareando o dia e iam aparecendo aquelas figuras a cavalo; eu mandava parar a caminhonete e começava a dar um discurso sobre o gaúcho, a pátria, o gauchismo, e os caras ficavam atônitos (risos). Assim arranjei 14 arreios. Só na palavra! Devolvi um por um, eu mesmo. Montamos os arreios e conseguimos oito pessoas. Faltou gente para montar, as pessoas ficavam com vergonha. Tu podes imaginar oito loucos vestidos de gaúcho, de faca?

Cultura - E o que as pessoas achavam?
Paixão - Não dava para achar, porque a gente "nem tava"! E as pessoas ficavam atônitas. Viemos lá do Regimento Osório, descemos a antiga Rua da Conceição e apertamos os arreios defronte ao Hotel Umbu. Nós íamos ficar por ali, tomando um trago e tudo o mais, esperando o cortejo que vinha do aeroporto. Chega a polícia: "Estão armados? Não pode. Estão presos". E aí começou a argumentação.

Cultura - O senhor era o embaixador deles?
Paixão - Não, todo mundo falava. Menos o Siqueirinha, que até hoje não fala (risos), o Antônio João Sá de Siqueira, médico veterinário.

"Para nós, não era folclore. A palavra era tradição"

Nesse trecho da entrevista, Paixão Côrtes revê a consolidação e a expansão do movimento tradicionalista, a partir do final dos anos 40

Arquivo pessoal/ZH

O menino João Carlos Paixão Côrtes, ainda no interior, aos cinco anos

Cultura - A polícia queria levar você?
Paixão - Queria. Um deles perguntou: "De onde o senhor é?". Eu respondi. E ele: "Mas é lá dos meus pagos!". E nos encontramos. Aí um dos policiais disse para gente cobrir a faca com o pala para não ficar mal para eles. Nisso passou o jipe com os restos mortais do Canabarro, montamos e fomos atrás. Seguimos em direção ao Centro, até a Praça da Alfândega. Ali, numa solenidade, com escolas, políticos e tal, não hastearam a bandeira do Rio Grande, nem tocaram o nosso hino. Só o hino nacional. Houve uma saudação do dr. Dante de Laytano, não lembro de quem mais. Ficamos por ali, ao lado da Brigada. Nesse momento, um guri pequeno e magrinho veio nos procurar. Falou com o Ciro Dutra Ferreira: "De onde é que vocês vieram?". E o Ciro: "Daqui mesmo, estudamos ali no Júlio de Castilhos". E o magrinho: "Mas como? No Júlio? E como é que eu não sei disso?". Ele estudava de tarde, e nós de noite. Aí o Ciro mandou ele falar comigo: "Fala com aquele bigodudo lá da ponta". Combinamos que ele iria aparecer de noite lá no Júlio. Era o Barbosa Lessa.

Cultura - O que lhe chamou atenção nele?
Paixão - As coisas que ele falava sempre estavam relacionadas à História. Ele sempre costurava com uma referência da História. Não era um homem campeiro, com a linguagem campeira, apesar de ter uma experiência parecida com a nossa. E ele tocava violão, já arranhava umas quadrinhas. Depois disso é que veio a Ronda Crioula, a Semana Farroupilha, o Candeeiro Crioulo, apareceram outros que não eram gaúchos nem nada, eram simplesmente urbanos. como o Ivo Sanguineti, que era um cara dedicadíssimo, dormia lá para que o fogo não apagasse, E foi até o dia 20 de setembro, com palestra com o Manoelito de Ornelas.

Cultura - Como é que o Manoelito de Ornetas, que era um grande intelectual, foi até o colégio, para falar com uns guris gaúchos?
Paixão - Eu é que o convenci. Peguei o Ciro e fomos até a casa do Manoelito. Ele tinha a Prosa da Terças, seção do Correio do Povo; então nós ligamos e nos apresentamos: "Olha, nós somos estudantes, o senhor poderia nos receber?". Apresentamos para ele o que estávamos fazendo e pedimos para ele falar. Na época ele estava lançando o livro Gaúchos e Beduínos. Quem acabou ficando na conferência foi o Lessa, porque foi de tarde, e eu tinha que trabalhar. Mas o melhor é o seguinte: convidamos o Manoelito para ser jurado do baile! Não sei até hoje como tivemos a petulância de fazer uma coisa dessas... O baile foi lá em Teresópolis.

Cultura - A idéia era fazer uma representação da vida campeira?
Paixão - Não! Para reviver! Não tinha nada de patacoada! Era reviver os nossos hábitos, puramente. Café de chaleira, pastel de carreira, fogo no chão, fumaça. E a música foi uma coisa! Falei com um. maestro e pedi uma banda para o baile e ele me disse: "Eu tenho bandinha". Era dessas de alemão. Aí não dava! (risos). Mas ele me disse: "Eu te arrumo gaiteiro, tocador de violão e tal".

Cultura - Qual era o repertório?
Paixão - Rancheira, xote, polca, de vez em quando tocavam um dobrado, desses da zona alemã, umas marchinhas meio cívicas...

Cultura - E o Manoelito de jurado?
Paixão - No meio daquela bagualada... (risos). O Ciro e eu fomos buscá-lo de auto, pilchados, e ele todo formal, de gravata. Ele ficou encantado. Escreveu uma crônica, depois, contando do baile e dizendo aquilo que nós tínhamos explicado para ele - para nós, não se tratava só das roupas, das danças, era também a dignidade, a moral do nosso povo.

Cultura - Vocês falavam abertamente sobre esse desconforto com o americanismo?
Paixão - Sim! Era só uma questão de analisar, de observar: o que é que tinha de música nossa? O Boi Barroso, Prenda Minha, Gauchinha e Minuano.

Cultura - E como foi a expansão do movimento, da idéia de tradicionalismo?
Paixão - Fundamos o Departamento, com aquela loucurada toda de trazer a chama e o ato cívico que se seguiu, o baile com mais de 200 pessoas, e depois nós perguntamos: "E agora?". Porque aí mais gente apareceu, gente que nem nos conhecia, e foi então que o Lessa disse: "Temos que nos reunir para formar um clube de tradições". Ele saiu por aí com um caderninho pegando nome e endereço de tudo que era gente interessada em participar e começamos a nos reunir na minha casa, o nosso primeiro quartel-general, e foi enchendo de gente. Aquilo começou a crescer, começou a chegar mais gente, gente de cabeça branca, gente séria...

Cultura - O senhor conheceu o Aureliano de Figueiredo Pinto?
Paixão - Não. Os literatos não existiam na forma da popularidade. Quem é que ia dizer verso do Aureliano? Tinha que ser declamador ou o próprio poeta. Declamador não tinha, ninguém queria se expor ao ridículo de dizer versos. Nós vínhamos de baixo, e a literatura era para os nobres. os sábios, os intelectuais, os dominadores da lingüística...

Cultura - E o senhor se lembrava do seu pai, por essa época?
Paixão - Sim, porque o meu pai, quando eu estava em Uruguaiana, comprava uns livrinhos. Queroquero, do Roque Callage, e me fazia ler. E lá em Uruguaiana tinha o Grêmio Literário Castro Alves. E nós éramos da campanha, então fundamos um grêmio literário Catulo da Paixão Cearense.

Cultura - Por que o Catulo?
Paixão - Porque era um poeta popular. falava das coisas da terra, com termos regionais. Eu era muito - guri, não cheguei a fundar, mas estava lá. Só declamava noemas do Paulo Setúbal, João, o Tropeiro. E foi ai que eu comecei a aprender a declamar.

Cultura - Vocês se sentiam fora disso?
Paixão - Não, é que nós vivíamos e os outros cultuavam (risos). Até aproximar uma coisa da outra, levou tempo. Eu fui um dos primeiros a sair por aí á declamar versos e tudo mais.

Cultura - Como é que o senhor e o Lessa começam a fazer pesquisas de cultura popular?
Paixão - Quase não havia elementos para se consultar. A gente ouvia coisas de citação. Queríamos sedimentar nossa cultura, formar a sociedade tradicionalista. Quando a gente foi registrar o 35 no cartório, não permitiram! Tivemos que mudar "patrão" para presidente, "capataz" para, sei lá, "vice-presi dente". Para sedimentar a simbologia do universo da estância, a idéia do patrão, do capataz, do posteiro, da invernada, não foi fácil. E também tinha muito gaudério meio grosseirão, que ia mais pela patacoada, e nós tínhamos que controlar.

Cultura - E suas pesquisas com o Lessa? Ele era o seu maior interlocutor?
Paixão - Sim, havia uma identificação muito forte. Então veio um convite do governo uruguaio para uma representação brasileira de gaúchos no Dia de la tradición, em Montevidéu, em 1949. Mas aí vieram os gaúchos das guerras de 93 e 23 com as papagaiadas. "Porque eu sou maragato!", dizia um, aqui, e outro vinha com "Eu sou pica-pau", e nós tivemos que afastar isso "Aqui não se discute isso!". Os ânimos estavam assim, ainda mais que tinha acabado o Estado Novo, tinha um clima de revanche, de acerto de contas.

Cultura - Como se dá a fundação do 35?
Paixão - O nome nós decidimos numa reunião em 5 de janeiro de 1948, mas a fundação foi em 24 de abril. E quando veio o convite uruguaio, o governo de Walter Jobim viu que o CTG 35 era uma gurizada e achou melhor, por precaução, mandar junto uns oficiais da Brigada, uns tipos excelentes. Em Montevidéu, desiflamos e declamamos, foi uma beleza! Aí chegou a hora da dança. E os castelhanos nos perguntavam: "Que danças vocês têm?!

Cultura - Que danças vocês tinham?
Paixão - Nós não tínhamos nada. E o que eu me perguntava era como os argentinos e os uruguaios tinham aquele monte de dança e nós não tínhamos nada. E o Lessa dizia "O Cezimbra Jacques diz isso, O Walter Spalding aquilo." Ele já tinha lido tudo.

Cultura - E já existia a noção de folclore?
Paixão - Não! Não tinha nada. Em 1947 foi a Unesco que definiu um apoio ao folclore, da Unesco se chegou à Comissão Nacional, e a Regional só se fundou aqui em 1948, depois da fundação do 35.

Cultura - E vocês se identificavam com a palavra "folclore"?
Paixão - Não, para nós a palavra era "tradição". Hábitos e costumes dos nossos antepassados. Foi daí que começou a nossa pesquisa. Não tinha descrição nenhuma, partitura nenhuma, então o Lessa e eu começamos a procurar. Eu viajava muito, pelo serviço, então íamos cada um para um lado. Começou em Palmares. Eu estava falando com um rapaz sobre danças tradicionais e ele me falou da tal "dança do pezinho". Eu não sabia: "Que dança do pezinho? Vocês dançam isso?" E o cara: "Claro, lá na praia, nas festas". E aí formou-se um grupo e nós fomos a Palmares para pesquisar. Bem, se a cem quilômetros de Porto Alegre tem uma dança dessas, como é que não vai ter por esse Estado inteiro?

Cultura - E o senhor viajava mas era funcionário da Secretaria de Agricultura, ainda?
Paixão - Sim, era só nos finais de semana que dava para fazer a viagem. Um dia o Ênio Freitas e Castro, que era da Secretaria de Educação, emprestou um gravador primitivo. Eu pagava duas passagens e levava o gravador.

Cultura - E quem é que custeava?
Paixão - Ora, quem é que custeava, eu! (risos). Já era loucura falar no assunto, imagina que alguém ia dar dinheiro para essas bobagens (risos).

Cultura - Quando é que se dá a fundação do grupo de dança?
Paixão - Em 1953, com Os Tropeiros da Tradição. De 1949 a 1952, o Lessa e eu juntamos 20 e poucas danças.

Cultura - E fazendo a faculdade junto?
Paixão - Faculdade e trabalho!

Cultura - Demorou para se formar?
Paixão - Sim, porque aí surgiu a oportunidade de divulgar as tradiç8es pela Europa, em Paris, em 1958. Aí eu cancelei a minha matrícula, tirei licença-prêmio na Secretaria e fiquei cinco meses bebendo e comendo naqueles cabarés franceses... Eram dois pares de dança e quatro músicos. Eu não conhecia nada de Paris, fora uma coisa ou outra de leitura. E não tinha salário, lá, porque os meus vencimentos estavam aqui. E mesmo assim fiquei cinco meses lá comendo e bebendo e indo pra lá e pra cá. só dançando, só sapateando.

Cultura - O senhor se apresentava em bares...
Paixão - Não, em teatros, em televisão, eu e o grupo todo. Era uma coisa completamente diferente, eles nunca tinham visto uma coisa daquelas. E o conjunto Os Gaudérios era um fenômeno.

Cultura - E como é que foi chegar a uma cidade com centenas de anos, com cultura letrada antiga, levando daqui uma coisa que poucos anos antes ninguém conhecia?
Paixão - É que o europeu tem essa cultura, sabe o que é o primitivo, ele conhece o autêntico. E como Paris era a capital do mundo cultural, todas essas manifestações passavam por lá. Então, os seletos representantes vão a grandes programas. O Olympia de Paris, Hôtel-de-Ville, grandes lugares. De Paris eu fui a Roma. Quando voltava de Roma, de trem, um siciliano fica me encarando até que ele me pergunta o que eu faço, e eu digo: "Eu danço, vivo da dança". Aí ele disse que tinha me visto, pela televisão, da Sicília, dançando em Paris.

"Paixão desde guri"

O escritor e jornalista Carlos Urbim, conterrâneo do célebre folclorista, revive a infância do menino João Carlos, já atento àqueles tempos para os pequenos requintes da vida doméstica e as manifestações culturais do povo rio-grandense.

Por Carlos Urbim.
Escritor e jornalista, autor de Um Guri Daltônico, entre outros livros

Ao preencher os espaços vagos no álbum Nosso Bebê, comprado havia meses na Livraria A Predilecta em Bagé, Dona Maria Fátima D"Ávila Paixão caprichou na caligrafia. Na página da dedicatória, chamou o marido, que assinou Julio Paixão Côrtes no lugar destinado ao papae. Com carinho e cuidado, a mãe registrou os dados na página sobre o nascimento: às três da madrugada do dia 12 de julho de 1927, na casa número 101 da Rua Rivadávia Corrêa, nasceu em Santana do Livramento uma criança do sexo masculino, pesando quatro quilos e medindo 59 centímetros. tia página sobre as roupinhas, com muitas linhas para o rol, Dona Fátima declarou com econômico orgulho: o bebê, ao nascer, já possuía o enxoval completo.

Entre os casacos, mantilhas e sapatinhos tricotados, estavam também a certeza de uma infância feliz e a paixão que começou desde guri. Na esquina da Rivadávia com a Rua Uruguai, entre a casa dos pais e a dos avós maternos, o menino João Carlos ouvia todos afirmarem: foi bem aqui que o argentino José Hernández, depois dos entreveros da Guerra do Paraguai, começou a declamar os primeiros versos do célebre Martim Fierro. Nada melhor para um moleque curioso, que um dia entregaria a vida à pesquisa da cultura popular.

Arquivo pessoal/ZH

O monumento também foi pequeno:
Paixão Côrtes com apenas quatro meses

Os pátios das duas casas - imensos - eram interligados. Em torno do poço, os jardins e a horta com abóboras, alfaces, couves, repolhos, nabos, beterrabas e cenouras. Mais adiante, o pomar com laranjas, pêssegos, uvas, bergamotas, limas, abacates. Tão grandes eram os pátios que o pai, técnico de ovinocultura da Secretaria da Agricultura, trazia cordeirinhos quando voltava das viagens de inspeção. Eram os bichos de estimação do guri que, adulto, enveredaria pela mesma profissão e se tornaria expert na classificação de ovinos.

Está no sangue, qualquer Ávila gosta de tocar um instrumento, cantar e dançar. Tem sido assim desde os primeiros que vieram do condado de Ávila, em Portugal. O avô, João Pedro Rodrigues Ávila, alto, moreno, bigodudo, tirava da gaita de oito baixos rancheiras e polquinhas de limpar banco. Foi repassando para o neto o gosto pelos ritmos e pelas coreografias das danças campeiras. E o piá herdou ainda a predileção por bigodes imensos, que se tornariam uma característica.

Bem que João Carlos tentou. Foi, durante dois anos, aluno assíduo e esforçado nas aulas de piano da Dona Mosquita. Aprendeu a ler partituras e a aprimorar o ouvido, lições que aproveitaria para sempre, mas desistiu de ser pianista. Nas festas dos Ávilas, passou a cantar e dançar. E o interesse pelas indumentárias pode ter nascido numa fusão cultural só possível no Carnaval: quando tinha cinco anos, usou pela primeira vez pilchas gaúchas. E lá se foi ele para o baile infantil de chiripá, lenço, bombacha, bota e chapéu virado na testa. Se tivesse na mão um laço, em vez de pacotinho de confete e bisnaga de lança-perfume, não seria o esboço inicial de uma estátua?

O gosto pelos detalhes, pequenos requintes da vida doméstica e as manifestações culturais do povo rio-grandense, tudo com o jeito artístico dos Avilas, vem junto desde a Rua Rivadávia Corrêa. Baixinha, delicada, a avó espalhava aromas de essências pela casa. No banho, jamais esfregava o rosto de maçãs largas, para conservar a pele cor de cuia. Habilidoso, o avô sentava na frente de casa para esculpir palitos. Espalhava na calçada pedacinhos de sarandi bem maleável e, com faca afiadíssima, moldava centenas de palitos. Os prontos iam para caixas de chá da índia. Não havia visita que não saísse com uma caixinha de presente.

Quem é Ávila tem olhos vivos, contornados por olheiras. De tanto querer ver tudo. Movido por essa paixão, o guri de Livramento se mudou para Uruguaiana, onde foi escoteiro e craque de basquete. Quando estava mais taludo, veio de muda para a Capital, como aluno do internato do IPA. E aquele pimpolho do álbum Nosso Bebê um dia virou modelo de monumento, esculpido por Antonio Caringi. Adulto, chegou a 1m82cm. Mas a escultura de bronze inaugurada em 20 de setembro de 1958 na porta norte de Porto Alegre tem 4m45cm de altura, pesa 3,8 toneladas e está sobre um pedestal de granito de 2m10cm. De bom tamanho para quem nasceu com quatro quilos e 59cm.

Fonte: Caderno Cultura, Jornal Zero Hora
Sábado, 15 de maio de 2004.

Textos de
Luís Augusto Fischer (Escritor, professor de Letras da UFRGS) e
Eduardo Wolf (Professor de Letras do Colégio Leonardo da Vinci)