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sexta-feira, 26 de março de 2010

Conceitos importantes para a compreensão da identidade do gaúcho , por Manoelito Savaris

Conceitos importantes para a compreensão da identidade do gaúcho


Com o objetivo de contribuir para a melhor compreensão a respeito das particularidades da sociedade sul-rio-grandense apresento alguns conceitos sobre termos que são utilizados freqüentemente no meio tradicionalista e por pessoas que se aventuram no campo da cultura típica da sociedade gauchesca.


TRADIÇÃO

“É o ato de transmitir os fatos culturais de um povo através de suas gerações. É a transmissão das lendas, narrativas, valores espirituais, acontecimentos históricos através dos tempos, de pais para filhos. É um conjunto de idéias, usos e costumes, recordações e símbolos conservados pelos tempos pelas gerações. É um culto aos costumes das boas coisas do passado. O povo gaúcho tem, no chimarrão, no fandango, na pilcha, nos temas musicais, na poesia, na doma, a mais bela das tradições.” Odalgil Nogueira da Camargo

“Essa palavra vem do latim, do verbo tradere (traditio, traditionis), que quer dizer trazer até, entregar. Em direito, tradição significa entrega. Em um sentido amplo, que é o que interessa para o presente estudo, tradição quer dizer o culto dos valores que os antepassados nos legaram, nos entregaram.” Antonio Augusto Fagundes
Glaucus Saraiva, na obra Manual do Tradicionalista, diz: "Tradição é o todo que reúne em seu bojo a história política, cultural, social e demais ciências e artes nativas, que nos caracterizam e definem como região e povo. Não é o passado, fixação e psicose dos saudosistas. É o presente como fruto sazonado de sementes escolhidas. É o futuro, como árvore frondosa que seguirá dando frutos e sombra amiga às gerações do porvir. "
Glaucus Saraiva, na mesma obra, cita ainda Hélio Rocha que diz:

"Tradição não é simplesmente o passado.
O passado é o marco. A Tradição é a continuidade.
O passado é o acontecimento que fica. A Tradição é o fermento que prossegue.
O passado é a paisagem que passa. A Tradição é a corrente que continua.
O passado é a mera estratificação dos fatos históricos já realizados. A Tradição é a dinamização das condições propulsoras de novos fatos.
O passado é estéril, intransmissível. A Tradição é essencialmente fecundadora e energética.
O passado é a flor e o fruto que findaram. A tradição é a semente que perpetua.
O passado é o começo, as raízes. A Tradição é a seiva circulante, o prosseguimento.
O passado explica o ponto de partida de uma comunidade histórica. A tradição condiciona o seu ponto de chagada.
O passado é a fotografia dos acontecimentos. A tradição é a cinematografia dos mesmos.
Enfim: Tradição é tudo aquilo que do passado não morreu”.

No entanto, aquela etapa é essencial para a compreensão do que vem ocorrendo com a cultura desde os anos 90 do século passado. Ou seja: ciclicamente, de trinta em trinta anos, ao ensejo de alguma rebordosa mundial ou nacional, e havendo clima de abertura para as indagações do espírito, termina surgindo algum "ismo" relacionado com a Tradição.
Assim foi com o gauchismo dos anos 90. Com o regionalismo dos anos 20. Com o tradicionalismo dos anos 50. Com o nativismo de agora. E sou capaz de jurar que lá pelo ano 2010 surgirá uma espécie de telurismo antinuclear ou cibernético, resultante da inquietação de analistas de sistemas em conluio com artistas plásticos, incluindo cartunistas e comunicadores visuais.
É claro que, de acordo com cada época, modifica-se a dinâmica e o campo de ação. Mas, no fundo, é tudo a mesma coisa: expressão de amor à gleba e respeito ao homem rural".


NATIVISMO

“Os valores do culto a Tradição mais característica do Rio Grande do Sul são o nativismo, a coragem, a hospitalidade, a honra, o respeito a palavra empenhada, o cavalheirismo, alem de outros.
Assim vê-se desde logo que o Nativismo não é um culto, como a Tradição, mas um dos valores desse culto. Nativismo é o amor que a pessoas tem pelo chão onde nasceu, onde é nato.” Antonio Augusto Fagundes

“é tudo aquilo que é próprio do local de nascimento, natural, não adquirido e que conserve as características originais. É o sentimento de defesa e amor ao pago nativo...” Odalgil Nogueira da Camargo

“é tudo aquilo que é próprio do lugar nato, (de naturalidade), portanto não é adquirido, mas conserva as características naturais (originais)” José Estivalet
Edilberto Teixeira diz que "nativismo é a qualidade do nativista. É aquele que é contrário, que é infenso a estrangeiros. Tudo o que é próprio do lugar de nascimento, que é ingênito, natural, não adquirido. Em filosofia, nativismo é a teoria das idéias inatas, independentes da experiência".
Antonio Augusto Fagundes afirma que é comum chamar-se de nativismo a arte que nasce da terra, que fala, que canta, que enfoca e que valoriza as coisas da terra dizendo-se: poesia nativista, canção nativista, música nativista, muito embora saibamos que a expressão correta para designar a corrente artística que valoriza os temas da terra seja "regionalista gaúcha".


TRADICIONALISMO

“Tradição – um culto – e Nativismo – um sentimento – existem no mundo todo. Agora, Tradicionalismo só existe no Rio Grande do Sul. Quando existe fora daqui, é o gaúcho, que estende muito longe seus braços, para estreitar junto ao coração, em todas as querências, os gaúchos, as gaúchas e seus descendentes.
Tradição e Nativismo podem andar com uma única pessoa. Existem no singular. Tradicionalismo, não: é obrigatoriamente associativo, coletivo. Tradicionalismo é um movimento cívico-cultural. É a tradição em marcha, resgatando valores que são validos não por serem antigos, mas por serem eternos, exatamente os valores que trouxeram o Rio Grande e o gaúcho do passado para o presente, projetando-o no futuro”. Antonio Augusto Fagundes

“... é a tradição em marcha, passando de geração a geração. É a arte de colocar em movimento as pecas de uma tradição. São os meios pelos quais pelos quais a tradição passa de pai para filho. É um movimento gaúcho que busca conservar as boas coisas do passado através do culto e da vivencia.” Odalgil Nogueira da Camargo

“Tradicionalismo é o movimento popular que visa auxiliar o Estado na consecução do bem-coletivo, através de ações que o povo pratica (mesmo que não se aperceba de tal finalidade) com o fim de reforçar o núcleo de sua cultura; graças ao que a sociedade adquire maior solidez e o individuo adquire maior tranqüilidade na vida em comum” Luiz Carlos Barbosa Lessa
Glaucus Saraiva assim define:
"Tradicionalismo é um sistema organizado e planificado de culto, prática e divulgação desse todo que chamamos Tradição. Obedece a uma hierarquia própria, possui um alto programa contido em sua Carta de Princípios, que deve, na medida do possível, realizar e cumprir”.
“Tradição, comparativamente, é o campo das culturas gauchescas. Tradicionalismo é a técnica de criação, semeadura, desenvolvimento e proteção das suas riquezas naturais, através de núcleos que se intitulam "Centros de Tradições Gaúchos."
Segundo Edilberto Teixeira, "o termo se diversificou e se define como um Movimento alicerçado em nossos CTGs(Centros de Tradições Gaúchas), tornando-se assim uma fonte de cultura”

TRADICIONALISTA

O tradicionalista é um nativista que acredita na forca da tradição e, por isso, se perfila como se fora um soldado, na defesa e difusão de valores, princípios e crenças que constituem a própria historia do gaúcho.
O tradicionalista é o militante do tradicionalismo na defesa da tradição gaúcha, que apresenta, entre outras, os seguintes valores básicos: o espírito associativo, o nativismo, o respeito a palavra dada, a defesa da honra, a coragem, o cavalheirismo, a conduta ética,o amor a liberdade, o sentimento de igualdade, a politização e o senso de modernidade. (valores citados por Jarbas Lima, in “O sentido e o alcance social do tradicionalismo”).
Tradicionalista é aquele que pugna pela conservação das idéias e valores morais transmitidos de geração em geração, ao longo da nossa bela história rio-grandense. Tradicionalista é, pois uma pessoa que preza as tradições, sem ser retrógrado nem saudosista.


CULTURA

Cultura é um sistema de atitudes e modos de agir, costumes e instituições, valores espirituais e materiais de uma sociedade.
Barbosa Lessa ensina que a cultura de qualquer sociedade se compõe de duas partes: o núcleo e as alternativas. O núcleo é constituído pelo Patrimônio Tradicional, onde se concentram os hábitos, princípios morais, valores, associações e reações emocionais partilhadas por todos os membros de determinada sociedade, ou por todos os integrantes de determinada categoria de indivíduos. Este cerne cultural da aos indivíduos a unidade psicológica essencial ao funcionamento da sociedade.
Cercando o núcleo, existe uma zona instável, denominada Alternativas, constituída por elementos culturais, que atingem somente alguns membros de uma sociedade. Essa zona de Alternativas tem a capacidade de fazer a cultura crescer e aperfeiçoar-se, porem se o núcleo, o Patrimônio Tradicional, for fraco, haverá uma invasão das alternativas que destruirão o núcleo, causando confusão social, pois que haverá, fatalmente, a perda das referencias e dos indicativos de identidade daquela sociedade.


FOLCLORE

Foi Willian John Thoms, um arqueólogo inglês, o criador do termo, da palavra Folk –lore, aportuguesada para folclore, que significa folk = povo e lore = saber, conhecimento. Em 22 de agosto de 1846, a revista The Atheneun, de Londres, publicou a carta de Willian, na qual era proposta a criação da palavra, para designar "os estudos dos usos, costumes, cerimônias, crenças, romances, refrões, superstições, etc”. Portanto o dia 22 de agosto foi institucionalizado como dia do folclore, no mundo.

Folclore é a ciência que estuda a cultura espontânea do grupo social, que estuda todas as manifestações espontâneas do povo que tem escrita (povo gráfico), tanto do ponto de vista material, quanto espiritual.

Como o próprio nome sintetiza, é a ciência do povo, são as tradições, os costumes, as crenças populares, o conjunto de canções, as manifestações artísticas, enfim, tudo o que nasceu do povo e foi transmitido através das gerações.

O fato folclórico define–se como parcela do conhecimento humano que se transmite no tempo e no espaço, de geração a geração, de camada cultural a camada cultural, sem ensino formal (em escolas ou livros).

Por isso, podemos afirmar, que o Folclore é "a ciência que estuda o homem nas suas manifestações de cultura espontânea, quer sejam materiais, quer sejam espirituais".

No Brasil, considera-se Folclore o "estudo da cultura espontânea do povo civilizado dos campos e das cidades."


GAUCHISMO

Falando em gauchismo, em "Caráter Cíclico do Tradicionalismo", Barbosa Lessa escreveu:
"A primeira etapa foi relativamente tímida. Brotou quando da passagem do Império para o sistema republicano. Foi contemporânea dos sangrentos episódios de 1893. Começou por esparsas contribuições, aqui e ali, de cidadãos interessados em recompor e estado e afirmar a viabilidade do republicanismo. Animava-os, indiscutivelmente, o espírito de solidariedade e a sinceridade cívica”.
O gauchismo foi uma espécie de Liga de Defesa Nacional em âmbito sul-rio-grandense e pretendia, fundamentalmente, a comemoração das datas cívicas. Chegou a se corporificar em meia dúzia de agremiações, que, ou tiveram vidas efêmeras ou, ao cabo, descambaram para a vala comum dos clubes recreativos”.

Edilberto Carvalho diz: "Gauchismo é a qualidade do gaúcho, é a expressão típica do seu linguajar. O que lhe é próprio, seus ditos, comparações e suas "largadas”.


REGIONALISMO

Regionalismo é uma corrente artística que se inspira nos temas da terra. Assim a natureza e o homem da região com seus valores e cultura típicos constituem-se em inspiração para que o artista realize o seu trabalho. (Paulo Cortes)

Edilberto Teixeira, em sua publicação diz:
"Regionalismo é tudo aquilo que se diz respeito a uma região, termo, locução ou costumes próprios daqueles que vivem nessa região. E regionalista é aquele que defende os interesses regionais".

Salvador Ferrando Lamberty, em sua obra ABC do Tradicionalismo, ao definir Regionalismo Gaúcho diz: "é a corrente artística voltada aos temas da terra e se inspira nos elos regionais. É o sentimento expresso na guarda de um patrimônio local; é a expressão do valor cultural e artístico de uma região".


O GAÚCHO

A origem do termo GAUCHO não é pacifica, mas há indicativos muito fortes que apontam historicamente o significado da palavra.
Remotamente, na época conhecida como a “idade do couro”, o habitante do pampa era chamado de “guasca”. O termo muitas vezes citado como se fora pejorativo, recebe de Machado de Assis (in Quincas Borba) significado de elogio. Ao referir-se a uma filha do Rio Grande, diz: “E uma guasca de primeira ordem”. Guasca correspondia a uma interjeição elogiosa que era pronunciada como um titulo de hombridade e destemor. Fala-se em guasca largado como quem dissesse quebra largado, torena, monarca das cochilhas. Como quem diz – Gaúcho.

Pouco mais tarde, no século XVIII surge o termo “gaudério”, tanto no território brasileiro quanto no castelhano. O gaudério, tido como homem sem lei nem rei, que “morava na sua camisa, debaixo do seu chapéu”, mantinha-se num equilíbrio instável entre o índio e o branco. A sua atividade marginal estendeu-se por mais de um século de história do pampa, formando com os “coureadores” e “changadores” uma espécie de associação de rapinagem mais ou menos organizada que chegou a constituir grave problema para os guardas volantes da campanha.

O termo “gaúcho”, surgiu, provavelmente, no último quartel do século XVIII e aparece como sinônimo de “gaudério”. Emílio Coni cita um parecer propondo a criação de uma partida volante para que “persiguiese y arrestase a los muchos malévolos, ladrones, desertores y peones de todas castas, que llaman Gauchos o Gauderios ...”.

O sentido pejorativo da palavra gaúcho, numa e noutra banda, mantém-se quase inalterado, até meados do século XIX. Azara, Saint-Hilaire, Arsène Isabele, Alcide D’Orbigny, todos são concordes em apresentá-los como homens sem lei e nem rei, campistas perturbadores da paz, vagabundos que alarmavam os governantes e ocupavam a polícia.

Um fator importante que forma a estrutura do ambiente em que vivia o “gaúcho”, da metade do século XVIII até a metade do século XIX, estava a prática de distribuição de sesmarias. Augusto Meyer, ao se referir ao assunto afirma: “A sesmaria, área que podia variar entre dez mil e treze mil hectares, beneficiando uma insignificante minoria de privilegiados, na prática, revelou-se um prêmio às formas improdutivas do trabalho, com a máxima vantagem individual, em detrimento das garantias médias do trabalho assalariado” (1957).

Se há um caso na história em que a explicação por meio de fatores econômicos e sociais, tem perfeito cabimento, este é o caso do gaúcho primitivo, durante o período colonial. É resultado daquele complexo cultural representado pelo cavalo, gado alçado e valorização do couro, movendo-se num meio de pampas abertas, onde as raias avançavam e recuavam de acordo com os entendimentos entre os reis portugueses e espanhóis.

Os gaúchos passaram a ser chamados a integrar as tropas dos comandantes militares locais que, de estancieiros, travestiam-se em coronéis, comandando a resistência contra as tentativas de invasão, ora dos espanhóis, ora dos portugueses.

Aos poucos, o vocábulo “gaúcho” adquiriu outro sentido, completamente oposto ao do original. Aqueles homens rudes, valentes, independentes, amantes da liberdade, exímios cavaleiros, eram também bons soldados, empenhados peões, até bons agregados, bastava que lhes dispensasse respeito e um pouco de compreensão.

Hermann Burmeister, em sua obra Reise durch die la Plata-Staaten (1861), assim descreve o gaúcho: “Erro grave é considerar os Gaúchos como gente grosseira ou brutal, ou, sem mais rodeios, como simples salteadores e bandidos; longe disso, o que os caracteriza é principalmente uma viva suscetibilidade e um inegável sentimento cavalheiresco, que logo os leva a ter em conta de superior toda pessoa mais ilustrada, ou de mais alta categoria social, que os tratar com deferência. Pelo contrário, a altivez e grosseria provocam de sua parte uma repulsa imediata”.

Desde a época da Revolução Farroupilha (1835-45) e, especialmente depois da Guerra do Paraguay (1860-65) a palavra gaúcho passou a significar o homem do campo, ligado a atividade pastoril, de maneira específica e a identificar os nascidos no Rio Grande do Sul, de forma genérica. A mudança ocorrida não foi fruto de lei ou de imposição, mas resultado da evolução natural da sociedade e da compreensão de que o homem é parte integrante do ambiente em que vive e sua condição muito se deve aos fatores a que está submetido.

Poderíamos resumir a trajetória do vocábulo “gaúcho”, dizendo que na época dos capitães-generais e primeiros proprietários era ladrão, vagabundo e coureador; para os capitães de milícias e comandantes de tropas empenhadas na defesa das fronteiras, era bombeiro, chasque, isca para o inimigo; nas guerras da independência do Prata, era lanceiro, miliciano; depois, para os homens da cidade, era o trabalhador rural, homem afeito aos serviços do pastoreio, peão de estância, campeiro destro, sinônimo de guasca ou monarca; finalmente, desde os primórdios do século passado, um nome gentílico, a exemplo de carioca, barriga-verde, capixaba, fluminense.

Cantado em prosa e verso, o gaúcho traz no nome o resumo de uma história, traz na alma a liberdade e no coração o sentimento nativista mais notório entre os brasileiros:

Quem é gaúcho de lei
E bom guasca de tudo,
Ama, acima de tudo,
O bom sol da liberdade

Nos campos de minha terra,
Sou gaúcho sem patrão;
De a cavalo, bem armado,
Minha lei é o coração.

O gaúcho é definido pela literatura gaúcho, como um indivíduo machista, altivo, irreverente, guerreiro, legítimo, é o “centauro dos pampas”.


CTG

O Centro de Tradições Gaúchas e uma associação de pessoas com objetivos culturais, sociais, lúdicas. Diferencia-se de outras associações e clubes por se dedicar ao resgate, valorização e divulgação do folclore e da cultura típica gaúcha, construída ao longo da historia do Estado do Rio Grande do Sul.

O primeiro CTG foi fundado em Porto Alegre, no dia 24 de abril de 1948, com o nome de “35 Centro de Tradições Gaúchas”. Este CTG serve, até hoje, de modelo. Atualmente existem mais de 2000 CTGs, espalhados pelo mundo. Há outros nomes designativos de associações que foram criadas com os mesmos objetivos dos CTGs, tais como: Grupo de Arte Nativa, Centro de Pesquisas Folclóricas, Piquete de Laçadores, Departamento de Tradições Gaúchas (quando criado como departamento de clube ou associação), etc.

Outro diferencial dos CTGs, é a nomenclatura das funções e dos setores da associação: o presidente é chamado “patrão”, o vice-presidente denomina-se “capataz”, o secretario é chamado “sota-capataz”, os departamentos são “invernadas”, etc.

Uma das características importantes dos CTGs é a sua vocação familiar, onde a convivência de gerações se constitui na garantia da transmissão da herança social, chamada de tradição.

Sob o aspecto sociológico os CTGs se constituem na recomposição dos “grupos locais” que se encarregam de manter intacto o “núcleo cultural” que da identidade a uma sociedade.


MTG

O Movimento Tradicionalista Gaúcho possui dois significados:
É a associação ou a federação dos CTGs e entidades afins, criado no dia 28 de outubro de 1966, durante o 12° Congresso Tradicionalista Gaúcho realizado na cidade de Tramandai. A exemplo do MTG do Rio Grande do Sul, foram criados MTGs em outros estados brasileiros, com a mesma finalidade. É o tradicionalismo gaúcho organizado.

Outro significado de MTG é aquele que designa a atividade de pessoas, chamadas tradicionalistas, que se dedicam à preservação, resgate, valorização e divulgação da cultura típica gaúcha e do folclore gaúcho. É a tradição em ação. É a atividade diária e permanente, desenvolvida nos CTGs.

O MTG possui organização semelhante às demais federações, com uma direção central (com abrangência estadual) e setores descentralizados, denominados “Região Tradicionalista” - RT, com abrangência regional. O MTG do Rio Grande do Sul possui 30 RTs.

O MTG é dirigido por um Conselho Diretor (eleito pela Assembléia Geral Eletiva que é integrada pelos representantes das entidades tradicionalistas filiadas, que se reúnem no Congresso Tradicionalista Gaúcho, a cada ano). Os integrantes titulares tem mandato de dois anos e os suplentes de um ano. O presidente do Conselho Diretor é também chamado de Presidente do MTG. Alem do presidente, também são escolhidos quatro vice-presidentes (de administração, de cultura, de finanças e de eventos) dentre os Conselheiros Titulares. Juntamente com estes tradicionalistas eleitos são escolhidos diretores e assessores, formando a Diretoria Executiva. As RTs são dirigidas por coordenadores, eleitos pelas entidades filiadas sediadas na região, e outros diretores e assessores escolhidos pelos coordenadores.

Compõe a estrutura do MTG, a Junta Fiscal (eleita juntamente com o Conselho Diretor, a cada ano) e o Conselho de Ética, composto por representantes do Conselho Diretor, dos coordenadores regionais, pelo Assessor jurídico e pelo Vice-presidente de Administração.

Fonte
Maio de 2007.

Manoelito Carlos Savaris
Historiador.
Presidente da Fundação Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore.

terça-feira, 23 de março de 2010

O NEGRO BONIFÁCIO - João Simões Lopes Neto


O NEGRO BONIFÁCIO

Se o negro era maleva? Cruz! Era um condenado!... mas, taura, isso era, também!
Quando houve a carreira grande, do picaço do major Terêncio e o tordilho do Nadico (filho do
Antunes gordo, um que era rengo), quando houve a carreira, digo, foi que o negro mostrou mesmo
pra o que prestava...; mas foi caipora.
Escuite.
A Tudinha era a chinoca mais candongueira que havia por aqueles pagos. Um cajetilha da
cidade duma vez que a viu botou-lhe uns versos mui lindos — pro caso — que tinha um que dizia
que ela era uma
“............................................... chinoca airosa,
Lindaça como o sol, fresca como uma rosa!...
E o sujeito quis retouçar, porém ela negou-lhe o estribo, porque já trazia mais de quatro pelo
beiço, que eram dali, da querência, e aquele tal dos versos era teatino...
Alta e delgada, parecia assim um jerivá ainda novinho, quando balança a copa verde tocada de
leve por um vento pouco, da tarde. Tinha os pés pequenos e as mãos mui bem torneadas; cabelo
cacheado, as sobrancelhas finas, nariz alinhado.
Mas o rebenqueador, o rebenqueador..., eram os olhos!...
Os olhos da Tudinha eram assim a modo olhos de veado-virá, assustado: pretos, grandes, com
luz dentro, tímidos e ao mesmo tempo haraganos... pareciam olhos que estavam sempre ouvindo..,
ouvindo mais, que vendo...
Face cor de pêssego maduro; os dentes brancos e lustrosos como dente de cachorro novo; e os
lábios da morocha deviam ser macios como treval, doces como mirim, frescos como polpa de
guabiju...
E apesar de arisca, era foliona e embuçalava um cristão, pelo só falar, tão cativo...
No mais, buenaça, sem entono; e tinha de que, porque corria à boca pequena que ela era filha do
capitão Pereirinha, estancieiro, que só ali, nos Guarás, tinha mais de não sei quantas léguas de campo
de lei, povoado, O certo é que o posto em que ela morava com a mãe, a sia Fermina, era um mimo;
tinha de um tudo: lavoura, boa cacimba, um rodeíto manso; e a Tudinha tinha cavalo amilhado, só do
andar dela, e alguma prata nos preparos.
Parecenças, isso, tinha, e não pouco, com a gente do capitão...
O velho, às vezes, ia por lá, sestear, tomar um chimarrão...
Pois para a carreira essa, tinha acudido um povaréu imenso.
E ela veio, também, com a velha. Velha, é um dizer, porque a sia Fermina ainda fazia um
fachadão...
E deu o caso que os quatro embeiçados também vieram, e um, o mais de todos, era o Nadico.
E sem ninguém esperar, também apareceu o negro Bonifácio.
É assim que o diabo as arma...
Escuite.

O negro não vinha por ela, não; antes mais por farrear, jogar e beber: ele era um perdidaço pela
cachaça e pelo truco e pela taba.
E bem montado, vinha, num bagual lobuno rabicano, de machinhos altos, peito de pomba e
orelhas finas, de tesoura; mui bem tosado a meio cogotilho, e de cola atada, em três tranças, bem
alto, onde canta o galo!...
E na garupa, mui refestelada, trazia uma chirua, com ar de querendona...
Eta! negro pachola!
De chapéu de aba larga, botado no cocuruto da cabeça e preso num barbicacho de borlas
morrudas, passado pelo nariz; no pescoço um lenço colorado, com o nó republicano; na cintura um
tirador de couro de lontra debruado de tafetá azul e mais cheio de cortados do que manchas tem um
boi salino!
E na cintura, atravessado com entono, um facão de três palmos, de conta.
Na pabulagem, andava sozinho: quando falava, era alto e grosso e sem olhar para ninguém.
Era um governo, o negro!
Ora bem; depois de se mostrar um pouco, o negro apeou a chirua e já meio entropigaitado
começou a pastorejar a Tudinha... e tirando-se dos seus cuidados encostou o cavalo rente no dela e aí
no mais, sem um ¾ Deus te salve! ¾sacudiu-lhe um envite para uma paradita na carreira grande. A
piguancha relanceou os seus olhos de veado assustado e não se deu por achada; ele repetiu o convite
da aposta e ela então ¾ depois explicou ¾ de puro medo aceitou, devendo ganhar uma libra de
doces, se ganhasse o tordilho. O tordilho era o do Nadico.
Ficou fechado o trato.
O negro ¾ era ginetaço! ¾ deu de rédea no lobuno, que virou direito, nos dois pés, e já lhe
cravou as chilenas, grandes como um pires, e saiu escaramuçando, meio ladeado!
Os quatro brancos se olharam… o Nadico estava esverdeado, como defunto passado...
A Tudinha pegou logo a caturritar, e a cousa foi passando, como esquecida.
Mas, quê!... o negro estava jurado...
Escuite.
Entraram na cancha os parelheiros, todos dois pisando na ponta do casco, mui bem compostos e
lindos, de se lavar com um bochecho d’água.
Fizeram as partidas; largaram; correram: ganhou, de fiador, o do Nadico, o tordilho.
Depois rompeu um vozerio, a gente desparramou-se, parecia um formigueiro desmanchado; as
parcerias se juntaram, uns pagavam, outros questionavam.... mas tudo se foi arreglando em ordem,
porque ninguém foi capaz de apontar mau jogo.
E foi-se tomar um vinho que os donos da carreira ofereceram, como gaúchos de alma grande,
principalmente o major Terêncio, que era o perdedor.
E a Tudinha lá foi, de charola.
No barulho das saúdes e das caçoadas, quando todos se divertiam, foi que apareceu aquele
negro excomungado, para aguar o pagode. Esbarrou o cavalo na frente do boliche; trazia na mão um
lenço de sequilhos, que estendeu a Tudinha: havia perdido, pagava...

A morocha parou em meio um riso que estava rindo e firmou nele uns olhos atravessados,
esquisitos, olhos como pra gente que já os conhecesse.., e como sentiu que o caso estava malparado,
para evitar o desaguisado, disse:
¾ Faz favor de entregar à mamãe, sim?!...
O negro arreganhou os beiços, mostrando as canjicas, num pouco caso e repostou:
¾ Ora, misturada!..., eu sou teu negro, de cambão!... mas não piá da china velha! Toma!
E estendeu-lhe o braço, oferecendo o atado dos doces.
Aqui, o Nadico manoteou e no soflagrante sopesou a trouxinha e sampou com ela na cara do
muçum.
Amigo! Virge’ nossa senhora!
Num pensamento o negro boleou a perna, descascou o facão e se veio!...
O lobuno refugou, bufando.
Que peleia mais linda!
Vinte ferros faiscaram; era o Nadico, eram os outros namorados da Tudinha e eram outros que
tinham contas a ajustar com aquele tição atrevido.
Perto do negro Bonifácio, sentado sobre um barril, sem ter nada que ver no angu, estava um
paisano tocando viola: o negro ¾ pra fazer boca, o malvado! ¾ largou-lhe um revés, tão bem
puxado, que atorou os dedos do coitado e o encordoamento e afundou o tampo do estrumento!...
Fechou o salseiro.
O Nadico mandou a adaga e atravessou a pelanca do pescoço do negro, roçando na veia artéria;
o major tocou-lhe fogo, de pistola, indo a bala, de refilão, lanhar-lhe uma perna.., o ventana quadrava
o corpo, e rebatia os talhos e pontaços que lhe meneavam sem pena.
E calado, estava; só se via no carão preto o branco dos olhos, fuzilando...
Ai!...
Foi um grito doido da Tudinha... e já se viu o Nadico testavilhar e cair, aberto na barriga, com a
buchada de fora, golfando sangue!...
No meio do silêncio que se fez, o negro ainda gritou:
¾ Come agora os meus sobejos!…
Depois, roncou, tal e qual como um porco acuado... e então, foi uma cousa bárbara!...
Em quatro paletadas, desmunhecando uns, cortando outros, esgaravatando outros, enquanto o
diabo esfrega o olho, o chão ficou estivado de gente estropiada, espirrando a sangueira naquele
reduto.
É verdade também que ele estava todo esfuracado: a cara, os braços, a camisa, o tirador, as
pernas, tinham mais lanhos que a picanha de um reiúno empacador: mas não quebrava o corincho, o
trabuzana!
Aquilo seria por obra dalguma oração forte, que ele tinha, cosida no corpo.
A esse tempo, era tudo um alarido pelo acampamento; de todos os lados chovia gente no lugar
da briga.
A Tudinha, agarrada ao Nadico, com a cabeça pousando-lhe no colo, beijando-lhe ela os olhos
embaciados e a boca já morrente, ali, naquela hora braba, à vista de todo o mundo e dos outros seus
namorados, que se esvaíam, sem um consolo nem das suas mãos nem das puas lágrimas, a Tudinha

mostrava mesmo que o seu camote preferido era aquele, que primeiro desfeiteou e cortou o negro,
por causa dela...
Foi então que um gaúcho gadelhudo, mui alto, canhoto, desprendeu da cintura as boleadeiras e
fê-las roncar por cima da cabeça… e quando ia a soltá-las, zunindo, com força pra rebentar as
costelas dum boi manso, e que o negro estava cocando o tiro, de facão pronto pra cortar as sogas...
nesse mesmo momento e instante a velha Fermina entrou na roda, e ligeira como um gato, varejou no
Bonifácio uma chocolateira de água fervendo, que trazia na mão, do chimarrão que estava
chupando...
O negro urrou como um touro na capa...; a rumo no mais avançou o braço, e fincou e
suspendeu, levantou a velha, estorcendo-se, atravessada no facão até o esse...; ao mesmo tempo,
mandado por pulso de homem um bolaço cantou-lhe no tampo da cabeça e logo outro, no costilhar, e
o negro caiu, como boi desnucado, de boca aberta, a língua pontuda, mexendo em tremura uma perna,
onde a roseta da chilena Unia, miúdo...
Patrício, escuite!
Vi então o que é uma mulher rabiosa...: não há maneia nem buçal que sujeite: é pior que
homem!...
A Tudinha já não chorava, não; entre o Nadico, morto, e a velha Fermina estrebuchando, a
morocha mais linda que tenho visto, saltou em cima do Bonifácio, tirou-lhe da mão sem força o
facão e vazou os olhos do negro, retalhou-lhe a cara, de ponta e de corte... e por fim, espumando e
rindo-se, desatinada ¾ bonita, sempre! ¾ ajoelhou-se ao lado do corpo e pegando o facão como
quem finca uma estaca, tateou no negro sobre a bexiga, pra baixo um pouco ¾ vancê compreende?...
¾ e uma, duas, dez, vinte, cinqüenta vezes cravou o ferro afiado, como quem espicaça uma cruzeira
numa toca... como quem quer estraçalhar uma causa nojenta... como quem quer reduzir a miangos
uma prenda que foi querida e na hora é odiada!...
Em roda, a gauchada mirava, de sobrancelhas rugadas, porém quieta: ninguém apadrinhou o
defunto.
Nisto um sujeito que vinha a meia rédea sofrenou o cavalo quase em cima da gente: era o juiz
de paz.
Mais tarde vim a saber que o negro Bonifácio fora o primeiro a... a amanonsiar a Tudinha; que
ao depois tomara novos amores com outra fulana, uma piguancha de cara chata, beiçuda; e que
naquele dia, para se mostrar, trouxera na garupa a novata, às carreiras, só de pirraça, para encanzinar,
para tourear a Tudinha, que bem viu, e que apesar dos arrastados de asa daquela moçada e sobretudo
do Nadico, que já a convidara para se acolherar com ele, sentira-se picada, agoniada da desfeita que
só ela e o negro entendiam bem...; por isso é que ela ficou como cobra que perdeu o veneno...
Escuite.
Até hoje me intriga, isto: como uma morena, tão linda, entregou-se a um negro, tão feio?...
Seria de medo, por ele ser mau?... Seria por bobice de inocente?... Por ele ser forçudo e ela,
franzina?... Seria por...

Que, de qualquer forma, ela vingou-se, isso, vingou-se...; mas o resto que ela fez no corpo do
negro? Foi como um perdão pedido ao Nadico ou um despique tomado da outra, da piguancha
beiçuda?...
Ah! mulheres!...
Estancieiras ou peonas, é tudo a mesma cousa... tudo é bicho caborteiro...; a mais santinha tem
mais malícia que um sorro velho!...

POESIA - REZA CHUCRA

REZA CHUCRA
Alcy Cheuiche

Perdoe Virgem Maria
Por lhe tomar atenção,
Envolvendo um coração
Tão puro e tão adorado.
Nesta miséria qu'eu trago,
Que arrasto, é melhor que diga,
Por esta terra inimiga,
Onde nunca fui amado.

A Senhora bem se lembra
Que nem sempre foi assim...

Embora não fosse em mim
Que a fortuna tinha ninho,
Eu bem que tive carinho
E uma mulher cuidadosa
Que me deixava de jeito.
Um lenço branco no peito,
A bombacha bem limpinha,
Quando para a igreja eu vinha,
No tempo qu'eu fui feliz.

Agora olhe pra mim.
Veja esta roupa rasgada
Qu'eu carrego com vergonha.
Parece que a gente sonha,
Quando vê que não é nada
Prá dominar o seu vício
Quando eu morava no pago
As vezes tomava um trago
No mais prá molhá a garganta
E agora querida Santa,
Até virei cachaceiro,
Depois que bebo o primeiro
Não há nada que me pare.
E depois até que eu sare
Vem me subindo a cabeça
Toda essa vida passada
E o rosto da minha amada
Enxergo assim como em sonho...

Ó minha Nossa Senhora,
Escute ao menos agora
Um pedido que le faço.

Sei que a morte já me ronda
Pela porteira do rancho...
Até já vejo os caranchos
Rodeando em volta de mim.

Reconheço o meu pecado,
E quando tiver chegado
Lá na fronteira do céu
Vão me apontar outro rumo:
- Ovelha com mancha preta
Bota a marca na paleta
Que só serve prá o consumo. -

Prá mim não há mais remédio,
Não é prá mim o pedido.
Sou índio chucro vencido
Pelo vício aqui do povo.

Eu peço é pelo meu filho,
Que abandonei lá no pago
Quando a sina de índio vago
Me arrebatou da querência.

Proteja a sua inocência...
Não deixe que o coitadinho
Siga este duro caminho
Que está seguindo seu pai.

Que fique por toda a vida
Grudado naquele chão,
Que resista a tentação
Com toda a força de macho,
Que não morra como guacho
Quando pará o coração.