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sábado, 20 de fevereiro de 2010

O QUE É A DANÇA - Seus benefícios


A dança é o movimento do corpo acompanhado ou não de música, mas sempre com ritmo.
De todas as artes, a dança é a única que dispensa qualquer tipo de materiais ou de ferramentas, dependendo apenas do corpo.
A palavra dança significa "desejo de vida e movimento". Sempre praticada tanto por homens, como por mulheres, é uma atividade tão antiga quanto o mundo.
A dança sempre foi utilizada por diversos povos e civilizações para contar seus feitos históricos ou em forma de agradecimento por uma boa colheita:
  • os índios dançavam para evocar as forças da natureza (dança da chuva);
  • os egípcios dançavam em adoração aos deuses e ao Faraó;
  • os chineses usam as danças em suas artes marciais;
  • os militares usam a dança em seus exercícios.
HISTÓRIA DA DANÇA

Procurando na história dos mais diversos povos, encontramos manifestações das mais diversas civilizações através da dança. É utilizada para contar seus feitos históricos , em alguns povos, no intuito de educar em algum sentido; entre os hindus, para fins religiosos, sendo também utilizada nos exercícios militares e para controle social. Vale acentuar que a dança sempre existiu nas mais diversas formas tendo duas origens ou classificações bem disitintas: a dança religiosa e a dança profana. Podemos afirmar com segurança que a dança nos seus primórdios tinha cunho meramente religioso, sendo usada para evocar os deuses ou as forças da natureza. Muitas vezes a dança tinha tão grande poder dentro de algumas religiões que era colocada como ato principal em alguns cultos, como por exemplo, a dança dos hindus em honra de Shiva, a dança de Krishna, que doutrina e educa; os egípcios também atribuíam à dança apenas um caráter de doutrina reliosa ou de culto aos deuses e ao faraó.
A dança que já foi utilizada e valorizada pelos gregos de formas clássicas e poéticas, não teve tanto prestígio entre os romanos. É somente na Renascença que a dança irá desabrochar, introduzindo mudanças que certamente não mais terminarão.
Essa transformação na Renascença aparece já nas primeiras sonata. A dança dita profana adquiriu seu maior impulso nesse período. Como profana, entendemos como aquelas que são populares e folclóricas. É aquela, cuja gestualidade é determinada pela visão da sociedade, como elementos morais que a visão "íntegra" ou pudorosa que alguns seguimentos religiosos condenam.
A França foi o país criador de vários gêneros de danças e festas, como também das próprias danças de salão com seus bailes de máscaras, criando também no séc. XVIII o minueto e divulgando a contra-dança. No séc. XVIII criaram as danças das cortes, entrando em cena as danças de origem burguesa, que durante o séc. XIX vieram a predominar em todos os bailes, com vários tipos de ritmos, como por exemplo, a valsa, a mazurca, a quadrilha e o ritmo escocês ou chote.
É na primeira metade do séc.XX que, além do surgimento de vários ritmos, outros tantos serão resgatados e mais divulgados, nascendo por exemplo, o jazz, o tango, e o samba, que serão bem difundidos. É neste século que vão surgir as primeiras preocupações com o folclore em geral.
Na dança, além de todo o valor cultural que possui, existem também outros valores que ela pode proporcionar ao ser humano. Basta entender que a dança, dentre todas as formas de exercícios é a que consegue um resultado mais completo em favor do ser humano, desenvolvendo simultaneamente vários valores.
Quais os valores que podemos desenvolver com a dança?
  • Valor físico: ela proporciona realmente um desenvolvimento de funões muito importantes para o ser humano. Desenvolve o ritmo, a resistência, o equilíbrio, a flexibilidade e a agilidade, melhorando ainda as funções digestivas, respiratórias e neuro-musculares.
  • Valor mental: desenvolve em primeiro lugar, a atenção do aluno, sua memória, seu raciocínio, sua imaginação e até mesmo, sua individualidade.
  • Valor cultural: o conjunto de costumes, lendas, tradições, religião, história e idéias estão presentes na aprendizagem da dança, em especial da dança folclórica. Podemos transmitir conecimento tanto de culturas regionais como nacionais e internacionais e sob os mais diversos aspectos, como música, indumentária, coreografia e gestualidade.
  • Valor social: pela dança podemos trabalhar melhor com o indivíduo, suas relaçoes interpessoais. a amizade com outros indivíduos, em especial ou com um grande grupo, a cortesia, a polidez, e o respeito são aspectos que estimulados pela dança, serão normalmente utilizados no dia a dia.
  • Valor moral: através da dança podemos trabalhar tambéma a cooperação, a disciplina, a autoconfiança, a iniciativa, a perseverança e a gentileza.
  • Valor recreativo: a dança tornar-se-á recreativa quando executada com uma dedicação espontânea, o que certamente auxiliará no alívio do estress diário, proporcionando satisfação e maior equilíbrio emocional.
  • Valor terapêutico: a formação do caráter e da personalidade do indivíduo que pratica a dança irá desenvolver-se com maior intensidade, pois a dança trabalha as reações neuromusculares, desenvolvendo a autoconfiança aos tímidos ou aos menos favorecidos socialmente. a dança cria ou dinamiza vários valores que são de suma importância para o homem e suas tradições ou destas discordando, auxiliando a capacidade de escolha e criando boas opções nos mais diversos sentidos. A dança trabalha a iniciativa própria dentro de um ambiente sadio em que o praticante da dança irá descobrindo gradativamente suas potencialidades. Além dessas contribuições de significado moral, mais importante é o aspecto social da dança, pois certamente a relação do praticante da dança com o meio ambiente proporciona uma boa oprtunidade de sociabilidade, sendo também uma terapia para vários problemas psicomotores.
Continua...

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

SABORES DA MESA GAÚCHA



SABORES DA MESA GAÚCHA

É praticamente imediata a associação entre o Rio Grande do Sul e o churrasco, que é consumido quase como em um ritual, sobretudo aos fins de semana em reuniões familiares ou de amigos. Logo veremos, porém, que o gaúcho saboreia muitos outros pratos.

Na Campanha, a carne de consumo diário é a de ovelha.

Na região serrana, nas cidades e no resto do Brasil, a carne de ovelha é impropriamente chamada "carne de carneiro".

Carneiro, para o gaúcho, é o macho da ovelha, isto é, um animal destinado à reprodução. Conforme o número de pessoas existentes na fazenda, abate-se um ou mais "capões" (macho de ovelha castrado) a cada dois dias aproximadamente. Após courear (extrair o couro), as carnes são preparadas em forma de churrasco, assadas ao calor das brasas em grelha ou espeto.


O primeiro assado é o sangrador - carne de pescoço onde se cortam as jugulares da ovelha para matá-la. Depois, as carnes são ensopadas, principalmente o espinhaço, na maneira simples da cocção em água fervendo, ou combinadas com outros ingredientes. Dos quartos, mais polpudos, tiram-se os bifes ou prepara-se o charque, que é muito apreciado. A cabeça é assada para os peões e a gurizada que a disputam entre si. Também se faz lingüiça de carne de ovelha misturada à carne de gado.

Afora as grandes estâncias, podemos dizer que o abate de gado vacum se verifica quinzenal ou mensalmente, conforme o número de pessoas da família e empregados. Em propriedades menores, o dono só determina o abate deste gado para o fim do outono, objetivando, principalmente, a feitura do charque - carne seca ou carne-de-sol, como é chamado em outras regiões do país - para provimento ao longo do inverno.

Na Campanha, depois de coureada a rés abatida, extrai-se o "matambre", carne que fica entre o couro e a "manta", cobrindo as costelas. Com o matambre, faz-se o primeiro churrasco. Antes de assar, o gaúcho "surra", isto é, bate o matambre sobre a própria rés ou num moirão ou qualquer outra madeira-, bate forte para amaciar. Enquanto assa, segue carneando.

A parte preferida para o churrasco é o costilhar sem a manta. Partes de peito com granito", assim como da "agulha", são usadas para "fervidos". Além destas carnes, vão para a cozinha o "tatu", o "lombo" (filé curto), o "filé mignon", a "picanha" e o "aleatre". As outras carnes são salgadas. Alguns ossos, principalmente os da perna, providos de "caracu" (tutano), os do alcatre e da paleta são aproveitados para fervidos e sopas; o resto vai para a extração da graxa bovina. A "rabada" (cauda de boi, coureada e desarticulada), é frita na panela, ensopada simples ou com batatas ou mandioca. Das patas, extraem-se o azeite (óleo) geléia de mocotó. Com ela, faz-se o prato do mesmo nome. Se a rês abatida é fêmea, salga-se o ubre para depois adicioná-lo ao feijão. O ubre também pode ser saboreado assado ou frito. Se a vaca está prenhez adiantada, o gaúcho aproveita o nonato. Cozido e mexido com farinha, o prato é chamado de "terneiro" e, na fronteira, "tapichi".

Por alguns dias, há fartura de carne fresca. Além de fervidos e as comem-se bifes, carne frita na caçarola, guisadinhos e os "'miúdos" ou "fressuras".

Depois, volta-se à ovelha, diariamente, e, no inverno, com o gado magro carneia-se também, com mais freqüência, o porco gordo, cevado, carne no verão é muito perecível. Além do porco, nessa época é usada a carne de galinha.

No período da castração, os testículos de touro são assados direitamente nas brasas. Usa-se também fritá-los, acrescentando-lhes ovos de galinha ou preparálos mexidos com farinha.

Normalmente quando, numa fazenda, se carneia o gado vacum, já se tem devidamente cevados, um ou mais porcos adultos capados.

Sangrado o animal, o talho é imediatamente tapado com um sabugo de milho. Depois de pelado, o porco é aberto. Com uma vasilha, colhe-se o sangue retido pelo tampão. E o que vai servir de matéria-prima para o fabrico da "morcilha", "morcilha de sangue" ou "morcilha preta", recebe como invólucro as tripas do animal.

Do "buchinho", parte menor do estômago, sai o invólucro para o "queijo de porco" ou a mistura com a carne de vaca, que é a mais comum. Dai carnear-se o bovino e o suíno para aproveitamento associado.

Da gordura do porco são extraídos o toucinho e a banha. Dos resíduos desta última - alguns com porções de carne meio torrada -, colhe-se o torresmo.

As carnes não consumadas em pratos especiais são transformadas e embutidas. A cola (cauda), patas, orelha e couro (pele) são salgados para ulterior aproveitamento. As carnes da cabeça são extraídas para a morcilha branca ou o queijo de porco.

Salvo a zona litorânea e as cidades ribeirinhas, onde a pesca é praticada profissionalmente, de maneira artesanal, o peixe não é frequente à mesa do gaúcho. O gaúcho consome peixe ocasionalmente, em alguma pescaria de fim de semana ou nos feriados de Páscoa.

De couro e água doce, os peixes mais comuns são o pintado, o jundiá, o pati e o surubi. De escamas, há o dourado, a piava, o grumatã e a traíra. Os peixes de mar mais consumidos são o linguado, a tainha, o miraguaia, o burriquete, o peixe-rei, etc. Outras espécies são consumadas, mas estas são as mais apreciadas.

Os peixes de couro são preferidos para ensopados, servidos invariavelmente com um pirão feito com farinha de mandioca. Os de escamas são muito apreciados fritos ou ao molho de escabeche. Entretanto, qualquer um desses peixes pode ser preparado frito ou ensopado. Para as fritadas de aperitivo, usam-se peixes miúdos - lambaris (de água doce) e sardinhas (de mar).

Muito usada é a sopa de cabeça de peixe. O bacalhau da Campanha é o peixe salgado das pescarias: "charque de peixe", como dizem na região.

Registre-se que esses nomes populares de peixes apresentam pequenas variações no Rio Grande do Sul. Em relação ao restante do país, porém, essas diferenças são muito significativas.

Dos derivados da carne, o charque é o mais comum e o mais saboroso. Pode ser saboreado assado, quando fresco, frito na panela ou guisado. Desta maneira, é feito simples ou cozido com legumes ou verduras picadas ou cereais. É o ingrediente fundamental para o preparo do "arroz de carreteiro" e a "paçoca de charque" ou "roupa velha", muito semelhantes, ambos socados no pilão. Na região serrana, esses pratos são acrescidos do pinhão, que é pilado junto. Como complemento do feijão ou feijoada, é muito usado o "desfiado de charque."

Do boi, tira-se a "tripa grossa", "tripa gorda" ou "tripa cancheira" nomes dados ao reto dos animais. Sempre precedida de uma demorada fervura para amaciar, a "tripa" é servida na grelha ou espeto, frita na panela, simples ou recheada.

O mondongo (bucho, dobradinha) requer fervura demorada antes de se iniciar seu preparo. Cortado em pequenas tiras, é ensopado simples ou com batata-inglesa. Em guisado, é picado miudinho e mexido com farinha de trigo ou de mandioca. As partes gordas são cortadas em pedaços grandes e fritas na panela.

A soalheira é salgada e pendurada para ser-vir de "coalho" para o leite, Alguns a comem assada ou frita.

Os rins são assados na grelha ou no espeto. Podem ser servidos como guisado simples, fritos na panela e refogados com farinha de trigo ou mandioca.

O fígado é servido em bifes simples ou guisadinho mexido com farinha. Também fica muito saboroso assado na grelha ou aferventado com sal para ser consumido frio. O coração é preparado da mesma maneira que o fígado. Os miolos não são aproveitados na Campanha. A cabeça, assim como alguns miúdos e carnes inferiores, é dada aos carneadores - empregados pobres que auxiliam a carnear -, ou então é partida e levada a ferver com outros ossos para extração da graxa.

A língua deve ser fortemente "surrada", batida, antes de ferver, para largar o couro. Come-se recheada, ensopada com batata-inglesa ou ervilhas, em fatias e coberta com ovos (à dorê).

A "passarinho" (baço de rês) é assada na grelha ou no espeto.

Da ovelha, os miúdos mais comumente usados são os rins, o fígado e o coração. Preparam-se os miúdos de ovelha tal como os de boi. Uma opção é picar tudo junto e fazer guisadinho mexido. Também se come a coalheira frita ou assada. Do sangue, faz-se o sarrabulho.

Os miúdos de porco são aproveitados parte para a morcilha (morcela) branca, parte para a morcilha preta. Raramente são consumidos em separado. Tripa grossa, bucho, rins, fígado e bofes não são aproveitados. Do sangue, também se faz o sarrabulho.

As caças são ocasionais, tanto as de pêlo como as de penas e estão subordinadas a épocas, com proibição de algumas espécies.

Não consideramos essas carnes neste trabalho por fugirem à alimentação cotidiana do gaúcho, quer na Campanha, quer nas cidades.

Dos cereais, o feijão preto é o mais comum entre os gaúchos. É o ingrediente básico da famosa feijoada, cujas sobras são aproveitadas para preparar o "feijão mexido" com farinha de mandioca. O feijão branco é usado "ao natural", isto é, cozido simples. Outros tipos são o fradinho, o cavalo, o mourinho, o carioca, todos de presença variável.

O feijão preto cozido junto com o arroz resulta num prato singelo denominado "branco e preto" - O feijão mexido com arroz no mesmo recipiente é chamado "carijó".

O arroz cozido simples é presença diária na mesa do gaúcho. Com o guisado de charque, compõe o tradicional "arroz de carreteiro"; com galinha, transforma-se na famosa "gatinhada", ou simplesmente "arroz com galinha"; com lingüiça cortada ou desmanchada, é o "arroz com lingüiça"; com carne fresca, alguns chamam de "maria-rita". É preparado também com couve ou repolho, com guisado de mondongo e mais raramente com pêssego. É muito usado no preparo de canjas e sopas.

A lentilha é preparada de forma bem simples, podendo ser adicionados pedaços de batata-inglesa e alguma carne salgada.

O milho verde é consumido cozido ou assado nas brasas. As espigas inteiras ou em pedaços completam sopas e fervidos. A canjica (milho seco quebrado) é cozida com charque ou galinha, bem como o trigo.

Legumes como mandioca ou aipim, batata-doce, batata-inglesa, chuchu e vagem (do feijão-verde), além de constituírem pratos independentes, complementam fervidos, assados e sopas.

A abóbora-moranga é cozida em pedaços grandes, com casca, e assim servida. Como complemento é descascado e feita em pedaços para acompanhar outros pratos. A abóbora-menina é servida da mesma forna que a abóbora-moranga. É o ingrediente básico para o preparo do quibebe. A abobrinha verde é muito frágil e de rápida cocção. É cozida inteira, com casca. Também complemento outros pratos quando descascado e cortada em pedaços. A abóbora-moranga tem a casca bastante dura e é saborosíssima. E servida cortada em gomos e cozida com a casca.

As verduras, além de constituírem pratos próprios, acompanham outras iguarias como o arroz, fervidos, guisados, ensopados e sopas.

A couve é cortada em tiras estreitas, frita na banha e cozida em água dissorada das próprias folhas. Em tiras, complemento guisados ou entra no cozimento do arroz. As folhas inteiras são usadas para fervidos. Alguns põem folhas partidas em pedaços grandes no feijão. O repolho é usado da mesma maneira. A mostarda é aferventada inteira, Fortada e batida com o fio da faca até aproximar-se do estado pastoso. E frita em banha e cozida no próprio caldo.

Entre as farinhas, a de mandioca constitui o acompanhamento indispensável do churrasco. É muito usada no feijão e em outros pratos, caldeados ou não. É também o ingrediente básico de farofas e pirões. A farinha de milho é usada para fazer angus, salgados ou doces, e cuscuz. Com a farinha de trigo preparam-se massas em geral. Ela é a liga comum para ovos batidos, guisados e bolinhos. É usada para engrossar caldos e, nas frituras, especialmente peixes, é usada como cobertura.

Os ovos de galinha são usados quase que com exclusividade. São consumidos fritos ou endurecidos na água fervendo. São empregados em ligas, mexidos, coberturas e omeletes.

As massas mais comuns são o talharim e o espaguete. Ainda há quem as prepare em casa. Cozidas em água e sal, são depois escorridas. Servem-se com molho de carnes menos gordas. E muito comum o consumo de massa com galinha ou com linguiça. Também são usadas em sopas.

As sobras de alimentos são aproveitadas. Assim temos tradicionalmente: do arroz, bolinhos; do feijão, sopa ou feijão mexido; das carne desfiado, de carne frito e refogado. Quando sobra "um pouco de tudo", prepara-se a "mexidela", "mexido" ou "revirado". Basta transformar as carnes em guisadinho, misturar com as outras sobras e refogar na panela ou frigideira.

De um modo geral, na vida diária, a alimentação do gaúcho consiste numa mescla dos hábitos alimentares dos vários povos que compõem sua cultura.

Extraído de Cozinha Gaúcha - uma mistura muito bem feita
Edição SENAC/RS

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

CAUSAS DA REVOLUÇÃO FARROUPILHA

Brasil - A Revolução Farroupilha - Causas

— Província isolada

Em 1835, ano em que começou a Revolução Farroupilha, a província do Rio Grande do Sul era, ainda, muito pouco povoada. Com não mais que 400 mil habitantes, tinha sua população concentrada na região da Depressão Central e no Litoral, com poucos núcleos habitacionais na zona de Cima da Serra e nas Missões, e com a Campanha ocupada principalmente por estâncias de gado.

Sede do governo em Piratini
Existiam, então, quatorze municípios: Porto Alegre, Rio Grande, Rio Pardo, Santo Antonio da Patrulha, Cachoeira do Sul, Pelotas, Piratini, Alegrete, Caçapava do Sul, São José do Norte, Triunfo, Jaguarão, São Borja e Cruz Alta. Entre eles, três se destacavam: Porto Alegre, capital da província; o porto de Rio Grande, por onde se fazia a maior parte das transações comerciais; e Pelotas, onde prosperava a manufatura do charque.

As comunicações eram bastante precárias. Em 1823, o charqueador Gonçalves Chaves, em seu livro "Memórias Ecônomo-Políticas", dizia que não existia uma só ponte em toda a província. A principal forma de transporte de cargas eram as carroças, que tinham que enfrentar caminhos intransitáveis durante os períodos de chuva. Isto resultava em um grande isolamento de certas regiões, como a área da fronteira com o Uruguai e Argentina que, tendo dificuldades de se comunicar com o litoral, canalizava sua produção de charque para o porto de Montevidéu.

Também se utilizavam os rios, como o Taquari, Jacuí e Caí, através dos quais se estabelecia a comunicação com Porto Alegre e, desta cidade, com o porto de Rio Grande. Em 1832 houve um considerável progresso na navegação fluvial, com a introdução de barcos a vapor. Mas a inovação, que tornava o transporte bem mais rápido do que o feito pelos veleiros, foi prejudicada pela Revolução Farroupilha, ficando quase que totalmente estagnada até o seu término.

Apesar do isolamento da província, e das diferentes zonas dentro dela, grande parte dos produtos usados no Rio Grande era importada, pois, como nas demais regiões do país, a indústria nacional era praticamente inexistente. Vinham do exterior fósforos, vassouras, pregos, sapatos etc. As classes mais abastadas podiam encontrar tecidos e acessórios vindos da Europa. O Rio Grande, por sua vez, exportava charque - principalmente para as demais províncias -, e couros, para o exterior.

O isolamento poderia dar a falsa impressão de uma província pacata, com uma vida quase parada. Isto, porém, não era verdadeiro.

Os gaúchos, durante o século passado, tiveram que lutar ferozmente com os espanhóis para garantir suas terras e, mesmo no início do século XIX, ainda enfrentavam problemas de fronteira, o último dos quais - antes da Revolução Farroupilha - tinha sido a guerra pela libertação do Uruguai, que tinha permanecido ocupado pelo Brasil entre 1817 e 1825.

— Descontentamento com o controle alfandegário

Na região de fronteira do Rio Grande, política e economia se misturavam. Ao lado da participação dos brasileiros nas questões uruguaias, havia o problema do controle alfandegário, especialmente do gado. Os charqueadores da região de Pelotas - que dependiam do gado gaúcho - defendiam um rígido controle, pois não queriam que as reses daqui fossem enviadas para o Uruguai. Os estancieiros, por sua vez, queriam o livre trânsito.

Em 1824 foram criados postos aduaneiros na fronteira, para controlar o recolhimento do quinto real, do imposto de 640 réis sobre cada animal e os dízimos cobrados sobre couro, charque, sebo e gordura. Com a guerra de 1825 a 1828, pela independência uruguaia do domínio brasileiro, o funcionamento desses postos foi interrompido. Após a guerra, como a situação econômica da província não era muito boa, foi proibido o fluxo de gado para o Uruguai.

Em 1830 foram adotadas novas medidas. Entre elas, um imposto de 15% sobre todas as mercadorias entradas no Império, inclusive o gado uruguaio. Isso não agradava a ninguém: aos charqueadores porque não queriam que o gado saísse, mas não tinham objeção a que entrasse. Aos estancieiros porque queriam que o gado saísse e entrasse a seu bel-prazer. Diante de tantos impasses, continuava o contrabando de gado.

No ano seguinte (1831), o governo instalou quatro postos fiscais para o recebimento do dízimo (taxa de 2% sobre o gado a ser transportado para o Uruguai), do quinto sobre o couro e de 15% sobre toda a mercadoria importada do Uruguai, incluindo o gado.

Essa última taxa era a que mais irritava os estancieiros, e viria a ser extinta em 1835. Além disso, o gado de raça não podia deixar a província, sem autorização especial. O do Uruguai tinha que pagar, lá, 800 réis em moeda de prata por cabeça. Isso fez intensificar o contrabando e o descontentamento.

— Dinheiro gaúcho pagava até dívidas com os ingleses

A centralização do poder tinha sido a tônica do governo do Imperador D. Pedro I. Pela constituição de 1824 (que ele outorgara à Nação), os presidentes de província eram escolhidos pelo poder central, que também definia um valor determinado para as despesas de cada província, suprindo-as com dinheiro caso houvesse um déficit, mas, em contrapartida, apropriando-se do dinheiro para aplicá-lo a seu bel-prazer caso houvesse um superávit. Essa situação era altamente insatisfatória para as elites regionais. E, após a abdicação de D. Pedro, começaram a pressionar o governo com o objetivo de obter uma maior autonomia.

Isto resultou, em 1834, na promulgação de um ato adicional que, entre suas diversas cláusulas, previa a substituição dos Conselhos Gerais Consultivos - órgãos que desempenhavam o papel de assessorar os presidentes de província - por Assembléias Legislativas Provinciais - que poderiam estabelecer leis fiscais, desde que não interferissem nas arrecadações nacionais já existentes. Esse ato tinha um objetivo principalmente conciliatório: procurava contentar aos liberais, ao dar um pouco mais de autonomia fiscal às províncias; e aos conservadores, ao manter a escolha do presidente da província nas mãos do governo central, bem como o controle final dos fundos provinciais.

No Rio Grande do Sul, antes e até depois do ato, existia um grande descontentamento em relação à destinação dos fundos públicos. A província havia acumulado, durante alguns anos, um superávit. Mesmo assim, esse dinheiro não podia ser aplicado em benefício da província, em obras como a construção de pontes, e nem mesmo no pagamento dos credores, que nessa época eram muitos.

Existiam aqui inúmeros credores do governo que esperavam o pagamento das dívidas que este contraíra durante as Guerras Cisplatinas, de 1825 a 1828. Eram soldados, comerciantes, estancieiros, que haviam servido nas forças de combate ou tinham fornecido víveres, gado e outros bens para as tropas, sem serem reembolsados. No entanto, como a legislação estabelecia uma quantia determinada para os gastos da província - e não previa o pagamento dessas dívidas - não podiam receber, mesmo havendo dinheiro para pagá-los.

Por outro lado, o governo central podia legalmente se apropriar do superávit acumulado para utilização em outros locais. Assim, em 1832, vinte e quatro contos de réis do superávit gaúcho foram mandados para cobrir o déficit de Santa Catarina. O governo central também usou o dinheiro do superávit do Rio Grande para pagar empréstimos feitos junto às Inglaterra. Chegou-se ao ponto de, no início de 1834, o Tesouro da Província dispor de mais de 500 contos de réis que não podia utilizar em nenhuma obra pública.

Naturalmente, essa situação irritava os gaúchos, que viam a renda que geravam ser utilizada em outros locais, enquanto a província carecia de estradas, escolas, pontes e outras obras de infra-estrutura básica.

— Moedas falsas complicavam a economia

Durante todo o período colonial o Rio Grande do Sul sofreu com a escassez de moeda. Inicialmente as moedas de ouro compunham cerca de dois terços do dinheiro em circulação no Brasil, sendo o outro terço formado principalmente de moedas de prata, com uma pequena parte de moedas de cobre.

Quando, ao chegar ao Brasil, em 1808, Dom João VI abriu os portos às nações amigas e aumentou as importações, causou um desequilíbrio na balança de pagamentos, que agravou a crise das moedas, pois o ouro empregado em sua produção passou a ser destinado à cobertura do déficit na balança comercial. A seguir ocorreu o mesmo com a prata e a solução foi aumentar a produção de moedas de cobre.

Mas essas moedas logo começaram a ser falsificadas, tanto dentro como fora do país. Esse processo continuou a ocorrer depois da Independência (em 1822), e mesmo depois da abdicação de Dom Pedro I (em 1831). No Rio Grande do Sul houve uma verdadeira inundação de moedas falsas. Calcula-se que entre as moedas de 40 e 50 réis, um quinto ou mesmo um quarto eram falsas.

O governo da província tinha medo de tomar medidas drásticas, como a proibição de circulação dessas moedas, e causar pânico entre a população.

Em 1833 o governo central resolveu que os portadores de moeda de cobre deveriam se apresentar dentro de um prazo de dois meses aos tesouros das diversas províncias, para entregar suas moedas e receber, em troca, cédulas que representariam 95% do valor das moedas que entregassem. Essas cédulas passariam a circular como dinheiro legal.

Para os gaúchos, a medida cedo mostrou-se complicada. O prazo era muito pequeno, e o número de postos de troca era insuficiente. Nesse quadro já confuso, apareceram dois novos problemas: a falta de cédulas em número suficiente e sua falsificação.

A situação atingiu tal gravidade, devido à falta de meio circulante e à falsificação de cédulas, que nesse ano (1833) chegou a se instalar o pânico entre a população. Para acalmar o povo, o Conselho Geral da Província teve que determinar que as moedas de cobre continuassem em uso. Como atenuante, permitiu-se que o Tesouro recebesse vales como dinheiro, mas persistiu a desconfiança dos gaúchos.

— Na fronteira reinava um clima de tensão

Enquanto os problemas referentes à escassez monetária, moedas falsas e retirada do dinheiro público da província atingiam a população do Rio Grande do Sul como um todo, alguns grupos econômicos enfrentavam situações específicas, que também eram causa de descontentamento. Era esse o caso dos charqueadores, que pagavam altos impostos sobre seu produto, tendo que concorrer com a produção platina, com menos impostos e mais barata.

De seu lado, os estancieiros tinham interesses econômicos e políticos no Uruguai. Durante a ocupação da Banda Oriental (Uruguai) pelo Brasil, de 1817 a 1825, muitos estancieiros gaúchos se estabeleceram lá. Compraram terras e gado, estreitaram laços políticos e familiares. Com a independência daquele país, insistiam em ter livro acesso às pastagens da Banda Oriental: afinal, tinham diversos interesses na área.

Mas, para o governo central brasileiro, a presença muito intensa de brasileiros no Uruguai representava um problema: terminavam interferindo na política local, provocando queixas freqüentes do governo uruguaio à diplomacia brasileira. Além disso, o nosso governo sofria a pressão dos charqueadores, que não tinham interesse em que os estancieiros levassem seu gado para o Uruguai.

Por isto, depois da independência uruguaia, o governo central adotou uma política dura em relação aos estancieiros gaúchos: proibiu que o gado do Rio Grande fosse levado para os países vizinhos. O Uruguai, por sua vez, adotou postura semelhante, proibindo que gaúchos engordassem ou criassem gado lá. Essas medidas, entretanto, tinham caráter limitado. A fronteira era grande, e era fácil contrabandear gado.


Juan Antonio Lavalleja
Por outro lado, a presença de rio-grandenses no Uruguai era muito intensa, e cedo os líderes políticos daquele país perceberam que não tinham como evitá-la. Fructuoso Rivera, presidente uruguaio, ao constatar que não tinha como contornar a situação, resolveu usá-la em seu proveito. Autorizou um de seus agentes no Rio Grande a passar escritura de terrenos no Uruguai em troca de pagamento em gado. Com isto, Rivera queria se tornar simpático aos gaúchos, e neutralizar a influência que seu rival, Juan Antonio Lavalleja, tinha na zona de fronteira.

Essa postura durou pouco tempo. No final de 1832, Rivera começou a confiscar e vender gado e terras daqueles que apoiavam Lavalleja. Entre os brasileiros da fronteira, correu a notícia de que também estava confiscando o gado dos residentes brasileiros naquele país que eram simpatizantes de Lavalleja.

Bento Gonçalves, o principal articulador do movimento farroupilha, era nessa época comandante militar da fronteira, em Jaguarão. Na sua opinião, os direitos dos gaúchos no Uruguai deviam ser mantidos, mas Rivera continuava a confiscar e retirar gado nas propriedades próximas da fronteira, e distribuía - gado e terras - entre os que o apoiavam. Bento Gonçalves resolveu então fazer vista grossa quando os opositores de Rivera - ligados a Lavalleja - traziam gado para trocar por armas no Brasil.

Após inúmeros enfrentamentos entre as suas tropas e as de Rivera, Lavalleja entrou, no final de 1832, no Brasil, sendo recebido por Bento. Ao saber do fato, o presidente da província ordenou que Bento desarmasse Lavalleja e os seus homens e os conduzisse para Porto Alegre. Bento trouxe-os para a capital, mas não os desarmou.

Chegando na capital, o presidente ofereceu a Lavalleja duas opções: ou ele iria para alguma outra província brasileira, ou para Buenos Aires. O Brasil temia que houvesse uma associação entre Rosas, Lavalleja e Bento para se criar uma república independente ou interferir na política dos três países.

Esse temor, aliás, iria reger o relacionamento das autoridades com Bento. Em 1834 Lavalleja voltou ao Brasil, sendo novamente recebido por Bento. Mas então tanto ele como o outro comandante de fronteira, Bento Manoel, em Alegrete, já haviam perdido a confiança do governo. Bento Manoel foi transferido, enquanto Bento foi suspenso.


Fontes:
A Revolução Farroupilha, Sandra Jatahy Pesavento, Editora Brasiliense | Riogrande.com, Lígia Gomes Carneiro | Raízes Sócio-econômicas da Guerra dos Farrapos, Leitman, Spencer - Ed. Graal, 1979 | A Revolução Farroupilha: história e interpretação, Freitas, Décio et alli. Ed. Mercado Aberto, 1985 | Rio Grande do Sul, prazer em conhecê-lo (como surgiu o Rio Grande), Lessa, Luís Carlos Barbosa. Ed. Globo, 1984 | História Geral do Rio Grande do Sul, Ferreira Filho, Arthur. Ed. Globo, 1978 | História do Rio Grande do Sul, Flores, Moacyr. Ed. Nova Dimensão, 1996 | Bento Gonçalves, o herói ladrão, Golin, Tau. LGR Artes Gráficas, 1983 | Memória da Guerra dos Farrapos, Brito, Francisco de Sá, Corag / Arquivo Histórico do RS | A Revolução de 1835 no Rio Grande do Sul, Barcellos, Ramiro Fortes de Corag / Arquivo Histórico do RS | Guerra Civil no Rio Grande do Sul, Araripe, Tristão de Alencar, Corag / Arquivo Histórico do RS | A Revolução Farroupilha - história documental para a juventude, Corag / Arquivo Histórico do RS.